Crença Em Nada

Crença em Nada

O nihilismo confunde as pessoas. “Como você pode se importar com qualquer coisa, ou se dedicar a qualquer coisa, se você acredita que nada significa coisa alguma?”

Em retorno, nihilistas apontam para a suposição do sentido inerente e questionam essa suposição. Nós precisamos que a existência signifique alguma coisa? Afinal, existência continua ao nosso redor não importando o que pensamos dela. Nós podemos fazer com ela o que quisermos. Alguns de nós irão desejar mais beleza, mais eficiência, mais função ou mais verdade — e outros não. Conflito resulta.

Nihilistas que não são do tipo anarquista infantil tendem a fazer uma distinção entre nihilismo e fatalismo. Nihilismo diz que nada tem sentido. Fatalistas dizem que nada tem sentido, então nada irá ter sentido para eles pessoalmente. É a diferença entre não ter nenhuma figura de autoridade para te dizer o que é certo, e desistir da idéia de fazer qualquer coisa já que ninguém vai afirmar que o que você fez é certo.

O que é nihilismo?

Como um nihilista, eu reconheço que sentido não existe. Se nós nos exterminarmos como espécie, e vaporizarmos nosso belo mundo, o universo não chorará conosco (uma condição chamada de falácia patética). Nenhum deus irá intervir. Irá apenas acontecer, e então — e então o universo continuará. Nós não seremos lembrados. Nós simplesmente não seremos.

Da mesma forma, eu aceito que quando eu morrer, o resultado mais provável será uma cessação do ser. Eu irei naquele momento deixar de ser a fonte de meus pensamentos e sentimentos. Esses sentimentos tendo existido apenas dentro de mim, nunca “existiram” exceto como impulsos eletro-químicos, e não serão mais achados quando eu me for.

Mais além, eu reconheço que não há nenhum padrão dourado para a vida. Se eu noto que viver em um lugar poluído e desolado é estúpido e sem sentido, outros podem não ver isso. Eles podem me matar quando eu mencionar. E então eles continuarão, e eu não. Insensíveis ao mundo poluído deles, irão continuar a viver nele e sofrer sob ele, desatentos para a existência de uma opção.

Uma árvore caindo numa floresta sem um observador faz um som. A floresta pode não reconhecer isso como um som porque uma floresta é várias formas de vida interagindo, não organizadas por algum princípio central ou consciência. Eles apenas fazem o que fazem. Da mesma forma, tocar a Nona de Beethoven para uma tigela de fungos não irá provocar uma resposta. O insensível continua não observante, assim como o próprio universo.

Muitas pessoas “se sentem” marginalizadas quando pensam nisso. Onde está o Grande Pai que irá ouvir seus pensamentos, validar suas emoções, e dizê-los com certeza o que é verdadeiro e o que não é? Onde está a escrita na parede, a prova final, a palavra de Deus? Como sabemos por certo que qualquer coisa é verdadeira, e se é verdadeira, que é importante?

Sentido é a tentativa humana de moldar o mundo à nossa própria imagem. Nós precisamos de algum sentido para a nossa existência, mas sentimos dúvidas quando tentamos proclamá-lo como uma criação de nós mesmos. Então procuramos por algum sentido externo que podemos mostrar a outros e fazê-los concordar que existe. Isso nos força a começar a julgar toda idéia que encontramos como ameaçadora ou afirmadora de nosso sentido externo projetado.

Essa mentalidade distanciada afirma ainda mais nossa tendência de achar o mundo alienador para nossas consciências. Em nossas mentes, causa e efeito são iguais; nós usamos nossa vontade para formular uma idéia e lá está ela, em forma simbólica. Quando levamos essa idéia para o mundo e tentamos implementá-la, no entanto, nós podemos estimar como o mundo irá reagir mas estamos frequentemente errados, e isso nos causa dúvida.

Como resultado, nós gostamos de separar o mundo de nossas mentes e viver em um mundo criado por nossas mentes. Nessa visão humanista, todo humano é importante. Toda emoção humana é sagrada. Toda preferência humana precisa ser respeitada. Somos nós contra o mundo, tentando impor nossa realidade projetada onde pudermos porque temos medo da falta de humanidade no mundo em geral.

O nihilismo reverte esse processo. Ele substitui o sentido externalizado com dois pontos de vista importantes. O primeiro é o pragmatismo; o que importa são as consequências na realidade física, e se existe um reino espiritual, ele precisa operar em paralelo com a realidade física. O segundo é o preferencialismo; em vez de tentar “provar” o sentido, nós escolhemos o que nos agrada — e aceitamos que o que somos biologicamente determina o que buscamos.

Rejeitando falácias patéticas antropomórficas como o “sentido” inerente, o nihilismo nos permite jogar fora o antropomorfismo. A idéia de uma moralidade absoluta, ou qualquer valor para a vida humana, é descartada. O que importa são as consequências. Consequências não são medidas pelos seus impactos em humanos, mas pelos impactos na realidade como um todo. Se uma árvore cai em uma floresta, ela faz um som; se eu exterminar uma espécie e nenhum humano viu, aconteceu mesmo assim.

Seu dicionário irá lhe dizer que nihilismo é “uma doutrina que nega qualquer base objetiva de verdade e especialmente de verdades morais.” Não é uma doutrina; é um método, como o método científico, que começa por engatinhar para fora do gueto de nossas próprias mentes. É um silenciamento das partes de nossas mentes que querem insistir que nossa perspectiva humana é a única real, e o universo precisa se adaptar a nós, em vez da alternativa sã de nos adaptarmos ao nosso universo.

Nessa visão, o nihilismo é um portal e uma reformulação para a filosofia, não uma filosofia em si. É um fim para o antropomorfismo, narcisismo e solipsismo. São humanos finalmente evoluindo totalmente e tomando controle de suas próprias mentes. Sendo assim, é um ponto de partida do qual podemos retornar à filosofia e re-analisar tudo, sabendo que nossa perspectiva está mais perto àquela da realidade fora de nossas mentes.

Nihilismo Espiritual

Apesar de vários interpretarem nihilismo como negando a espiritualidade, a única declaração coerente do nihilismo é que existe uma falta de sentido inerente. Isso não exclui a espiritualidade, somente se a chamarmos de inerente. Isso significa que a espiritualidade nihilista é exclusivamente transcendentalista, significando que observando o mundo e encontrando beleza nele, nós descobrimos uma espiritualidade emergindo; nós não precisamos de uma autoridade espiritual separada, ou da falta de uma.

É incorreto dizer que o nihilismo é ateísta ou agnóstico. Ateísmo é incoerente: afirmar um significado inerente para a negação de Deus é uma falsa objetividade assim como afirmar que podemos provar que há um Deus. Agnosticismo faz a espiritualidade girar em torno do conceito de incerteza sobre a idéia de Deus. Humanismo secular substitui Deus com umindivíduo idealizado. Todos esses são sem sentido para um nihilista.

Na visão do nihilista, qualquer ser divino existiria como o vento — uma força da natureza, sem balanço moral, sem qualquer sentido inerente à sua existência. Um nihilista poderia notar a existência de um deus, e depois dar de ombros e seguir em frente. Muitas coisas existem, afinal. O que é mais importante para um nihilista não é o sentido inerente, mas o design, padrões e elementos interconectados do universo. Observando-os, nós achamos uma maneira de descobrir sentido através de nossa própria interpretação.

Isso por sua vez nos permite fazer escolhas morais que não são forçadas. Se nós estamos nos baseando em um outro mundo para nos recompensar onde não somos recompensados aqui, nós não estamos fazendo um sacrifício. Se nós acreditamos que um Deus fora do mundo deve existir para que ele seja bom, nós estamos maldizendo o mundo. Mesmo que pensemos que há um jeito inerente certo de fazer as coisas, e que podemos ser recompensados por isso, nós não estamos fazendo escolhas morais.

Escolhas morais ocorrem quando percebemos que não há nenhuma força nos compelindo a fazer aquela decisão a não ser nossa inclinação a nos importarmos com as consequências. Isso por sua vez é devido ao fato de sermos feitos com inteligência suficiente para reverenciar a natureza, o cosmos e tudo que nos trouxe à consciência. De fato, o único jeito de termos tal respeito pelo mundo é se nós vermos a consciência e a vida como um presente, e então escolher otimizar e complementar a ordem da natureza.

Numa visão de mundo nihilista, não há valor inerente nenhum se vivemos ou morremos como espécie. Nós podemos ficar, ou ser assoprado como uma folha morta, e o universo não irá ligar nem um pouco. Aqui devemos separar julgamento, ou ligar para as consequências, das próprias consequências. Se eu der um tiro em alguém e ele morrer, a consequência é a morte dele. Se eu não tenho julgamento disso, isso não significa nada mais do que sua ausência permanente.

Se o universo tem a mesma ausência de julgamento, não há nada mais que a ausência dele. Nenhuma conclusão cósmica, nenhum julgamento por deuses (mesmo se escolhermos acreditar que eles existem), e nenhuma emoção compartilhada por todos. É o evento e nada mais, como uma árvore caindo em uma floresta quando ninguém está lá para ouvir a queda.

Já que não existem julgamentos inerentes em nosso universo, e nenhum senso de julgamento absoluto e objetivo, o que importa é a nossa preferência a respeito das consequências. Nós podemos escolher não sobreviver como uma espécie, nesse caso insanidade e sanidade possuem o mesmo nível de valor, já que a sobreviência não possui mais uma posição de valor para nós. Nossa sobreviência não é inerentemente julgada como boa; cabe a nós fazer isso.

No nihilismo, como em toda filosofia suficientemente avançada, a meta final é de fazer “tudo simplesmente o que é”, ou de decifrar o suficiente de nossa consciência que não confundimos o instrumento (nossas mentes) com o seu objeto (nosso mundo). Para um nihilisa, o maior problema humano é solipsismo, ou uma confusão da mente com o mundo; nossa solução é apontar que os valores humanos que consideramos “objetivos” e “inerentes” são apenas pretensão.

O nihilismo, em vez disso, nos condiciona a nos atualizarmos. Ele não nega a falta de sentido inerente da existência, e não cria uma falsa realidade “objetiva” baseada em nossas percepções do que desejamos que exista. Em vez disso, ele nos encarrega de escolher o que desejamos que existisse, e a trabalhar para fazer ocorrer na realidade.

O humano completamente atualizado é capaz de dizer: Eu estudei como o mundo funciona; Eu sei como prever suas respostas com sucesso razoável; Eu sei qual causa irá criar qual efeito. Como resultado, podemos dizer, eu irei escolher um certo efeito que desejo que é coerente com a organização de nosso mundo, para que obtenha sucesso.

Isto nos traz de volta à questão de se a beleza é descoberta, ou inventada; alguns sugerem que a beleza é inerente a certas abordagens de organização da forma, enquanto outros pensam que podemos inventá-la à nossa própria maneira. Um nihilista diria que os padrões que definem a beleza não são arbitrários, portanto possuem um precedente no cosmos extra-humano, e que nossos artistas criam beleza compreendendo a organização de nosso mundo e depois transportando-a para uma forma nova, humana.

Através da adoção da “realidade definitiva” — ou realidade física e as abstrações que descrevem diretamente sua organização, em contraste à opiniões e julgamentos — como a única constante inerente da vida, o nihilismo força humanos a fazerem a decisão moral definitiva. Em um mundo que requer ambos bem e mal para a sobrevivência, escolhemos nos esforçar pelo que é bom, mesmo sabendo que isso pode requerer que usemos métodos maus e enfrentemos consequências más?

O teste de espiritualidade definitivo na natureza não é se podemos declarar amor universal para todos os seres humanos, ou declararmo-nos pacifistas. É se podemos fazer o que é necessário para nossa sobrevivência e melhora, já que essa é a única maneira de abordar nosso mundo com uma verdadeira atitude reverente: adotar seus métodos, e através de uma preferência moral não-forçada, escolher ascender, e não decair.

Nós precisamos dar um salto de fé e escolher acreditar não na existência do divino, mas em sua possibilidade através da fusão de nossa própria imaginação com nosso conhecimento da realidade. Encontrar divindade no mundo material e corruptível requer um ponto de vista transcendental épico que encontra no funcionamento de uma ordem um sacramento, porque essa ordem proporciona a base que nos dá nossas consciências. Se nós amamos a vida, nós a achamos sagrada e ficamos reverentes à ela, e então como nihilistas podemos rapidamente descobrir o misticismo transcendental e o idealismo transcendental.

Desse ponto de vista, é fácil ver como o nihilismo pode ser compatível com qualquer fé, inclusive o Cristianismo. Desde que não confundamos nossa interpretação da realidade (“Deus”) com a própria realidade, nós somos transcendentalistas que encontram nossa fonte de espiritualismo na organização do mundo físico ao nosso redor e em nosso estado mental, o qual podemos ver como tendo um funcionamento similar e paralelo. Quando as pessoas falam de Deus, um nihilista pensa nos padrões das árvores.

Nihilismo Prático

Como um nihilista, ou alguém que está além da moralidade e da santidade da vida humana e de ilusões, aplica esses princípios na vida cotidiana? A resposta curta é “com muito cuidado”. A história humana oferece um relato atrás do outro de como algumas poucas pessoas inteligentes começaram algo bom, e então parasitas incrustaram, e eventualmente formaram um movimento político para assassinar aqueles que sabiam o que era melhor, lançando então esse algo bom para a dilapidação.

A essência do nihilismo é a transcendência através da eliminação de um falso significado “inerente” que é uma projeção de nossas próprias mentes. Quando nós cancelamos a ilusão, e podemos olhar para a realidade como um continuum de relações de causa e efeito, podemos saber como nos adaptarmos a essa realidade. Isso nos deixa acima do medo da realidade que nos faz refugiar em nossas próprias mentes, uma condição conhecida como solipsismo.

Isso por sua vez leva a um tipo de realismo primitivo que rejeita tudo menos os métodos da natureza. Estes são inerentes não só à biologia, mas à física e aos padrões dos nossos próprios pensamentos. Não precisamos de significado inerente; só precisamos nos adaptar ao nosso mundo e, da paleta de opções oferecidas, escolher o que desejamos. Desejamos viver em cabanas de barro, ou como os antigos gregos e romanos nos esforçarmos por uma sociedade de conhecimento avançado?

A maioria das pessoas confunde fatalismo com nihilismo. Fatalismo, ou a idéia de que as coisas são como são e não irão mudar, se baseia em um “sentido” inerente sendo negado pelo seu poder emocional. Fatalismo é um dar de ombros e um desejo de que as coisas pudessem ser diferentes, mas como não são, nós iremos ignorá-las. Nihilismo é o princípio oposto: uma aceitação reverente da natureza como funcional e de fato genial, e uma determinação a conquistá-la.

Essa não é uma filosofia para os fracos de coração, mente ou corpo. Ela exige que olhemos claramente para verdades que a maioria acha desagradável, e então nos forçarmos além delas como meio de nos disciplinarmos em direção à atualização de nós mesmos. Assim como o nihilismo remove o falso sentido inerente, a atualização de nós mesmos remove o drama do eu externado e o substitui com um sentimento de propósito: que jornada faz minha vida ter sentido?

Diferente do Cristianismo e do Budismo que procuram destruir o ego, o nihilismo procura remover o planejamento que faz o ego parecer tudo o que temos. Ele nega ambos materialismo, ou viver para o conforto físico, e dualismo, ou viver por um deus moral em outro mundo que não faz um paralelo com o nosso em funcionamento. Qualquer reino espiritual irá fazer um paralelo com este, porque já que a matéria, energia e pensamentos fazem um paralelo em seus padrões, qualquer outra força faria o mesmo.

Além disso, a negação do ego é uma falsa forma de significado inerente. Um significado definido em termos negativos elogia o objeto tanto quanto sua contraparte; dizer que sou anti-roedores é afirmar a necessidade de roedores. A única verdadeira liberdade do ego consiste em encontrar um objeto de substituição, ou ur-consciência para a realidade, para substituir a voz da personalidade que nós frequentemente confundimos com o mundo.

Nossos problemas humanos na terra não se resumem a simplificações como as narrativas oferecidas pela imprensa porque são populares: nós o povo somos excepcionais, exceto quando oprimidos por reis, governo, corporações ou pessoas bonitas. Nossos problemas humanos começam e terminam na nossa incapacidade de reconhecer a realidade e forçá-la sobre nós mesmos; nós em vez disso optamos por ilusões prazerosas, e geramos as consequências negativas que são de se esperar.

Se não nos livrarmos de nossos medos, eles nos controlam. Se criamos um falso antídoto para nossos medos, como um falso senso de significado inerente, nós nos escravizamos duplamente a esses medos: primeiro, os medos persistem porque não temos resposta lógica para eles, e segundo, nós estamos agora em débito com o dogma que supostamente os dissipou. Esse é o motivo pelo qual os problemas humanos continuaram relativamente não solucionados por séculos.

Como um planejamento filosófico, o nihilismo nos dá uma ferramenta com a qual abordar todas as partes da vida e fazer sentido delas. Diferente de soluções meramente políticas ou religiosas, ele está contido em todo o nosso pensamento, e, removendo a falsa esperança, nos dá uma esperança no trabalho de nossas próprias duas mãos. Onde outros se revoltam contra o mundo, nós nos revoltamos para ele — e fazendo isso, providenciamos um futuro são.

23 de março de 2010

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