Entre a dissonância e a paralaxe

por Priscila

Um confrade, há pouco tempo, me indicou alguns livros a respeito do fenômeno da dissonância cognitiva, que eu imediatamente comprei, e posteriormente li, para entender bem do que se trata este interessante fenômeno, e comparaá-lo com aquele identificado e explicado por Olavo de Carvalho, a famosa paralaxe cognitiva, o desvio do eixo da percepção teórica para FORA da realidade concreta.

Ao verificar o fenômeno da dissonância cognitiva, seu identificador a descreve como sendo o fenômeno criado pela percepção de que há um descompasso entre como a pessoa GOSTARIA que fosse a realidade e a dita cuja realidade concreta – o que causaria intenso desconforto na criatura. Para “resolver”o desconforto causado pela dissonância, então, a pessoa – via inúmeros mecanismos – tenta fazer o que em linguagem chã e bruta se chama uma “acoxambração”, ou seja: tenta “dar um jeito”para tentar anular o descompasso na marra.

O autor menciona como exemplo o caso de um grupo de pessoas que acreditavam cegamente numa médium que afirmava que o mundo acabaria num determinado dia e numa determinada hora, etc: essas pessoas largaram os empregos, venderam o que tinham – e se reuniram na data aprazada, em casa da referida médium, para esperar o fim do mundo (que seria obra de ETs enfurecidos com o comportamento dos humanos na Terra, ou alguma idiotice no gênero). E que obviamente NÃO aconteceu, é claro. Para “compensar” a dissonância que o “não-fim do mundo” causou nos coitados dos patetas (que haviam abandonado empregos e vendido seus bens – e é de se imaginar que tenham sido bastante criticados por ter feito isso!), a médium “resolveu”o assunto afirmando que fora a presença deles ali, na casa dela, esperando o fim do mundo com tanta confiança, que havia “comovido de tal forma” os tais ETs – que eles resolveram desistir de estuporar o planeta e todos os viventes… !

Em sendo assim, as pessoas puderam “remendar” as coisas, dimuinuir a dissonância cognitiva, anulando o desconforto que vinha da admissão de que a história era uma completa patetice, e eles eram uns bobalhões que haviam acreditado numa mentira absurda.

O autor credita esta tendência a querer diminuir ou anular a dissonância a algo “INERENTE” aos humanos, do que eu discordo veementemente: na minha opinião, essa coisa não é nada “inerente”, e sim DERIVA da anulação da consciência, do segundo elemento da cognição: que, ao ser obliterado, faz com que a idéia de certo e errado, de bem e mal – e consequentemente os conceitos de “culpa”, “remorso”, etc – passem a ser vistos como INDESEJÁVEIS e definitivamente deletérios!

DESDE QUE a humanidade passou a acreditar que estamos aqui a passeio e para “ser felizes”, sem maiores conotações morais ou espirituais, surgiu o relativismo moral, que é o que EMBASA o “remendo da dissonância”. Se vivemos entre desmoralizados lesos que “bloqueiam” culpa ou remorso – e aviso que perigosamente estão começando a surgir os que nem sequer TÊM mais a dissonância, e não estão “bloqueando”ou “justificando” nada, porque REALMENTE não possuem mais vislumbre de culpa ou remorso: este é o ORANGO, o verdadeiro e real ORANGO – isto se deve a um ADESTRAMENTO CONTÍNUO para que “assim seja”, não a algo inerente a nós.

Assim, a CADA COISA que deveria nos causar culpa ou remorso – hoje considerados “chatices indevidas” que a humanidade imbecilizada gradualmente achou lindíssimo ANULAR, como excrescências inventadas por espíritos-de-porco que visam a “acabar com a festa”, e criar “complexados” – levanta-se imediatamente o MECANISMO APRENDIDO para “anular a dissonância”.

Abandonou o filho, lesou o patrão, traiu o amigo? Não sinta culpa: você “MERECE” aquela vantagem, aquela oportunidade, aquela felicidade, aquela carreira! Gastou além do que podia, bebeu demais, perdeu a hora, mentiu, tapeou, omitiu? Não sinta culpa: você “TEM DIREITO” a isso.
Como lhe ensinaram, como berram aos quatro ventos, “o que importa é ser feliz”: comece a berrar isso você também, e está feita a festa do relativismo.

A ÓBVIA encrenca de diminuir a dissonância desse jeito, anulando culpa e remorso, é que evidentemente isto significa anular junto o próprio conceito de ERRO – e nunca ninguém poderá fazer com seus erros aquilo que os RESGATA, que é APRENDER com eles, tentar corrigi-los, e não repetí-los nunca mais! Uma vez que a coisa errada não é mais vista como ERRADA, e sim como CERTA, é claro que não há motivo NENHUM para a pessoa não continuar a fazer aquilo pela vida afora. Não há o que aprender – já que a pessoa se convenceu de que ERA para ser daquele jeito, mesmo. O DESVÍNCULO da realidade se instala lentamente, e atinge a TODOS os âmbitos.

Por exemplo: me parece INACREDITÁVEL que alguém ache que o Brasil “vai bem” e que “os brasileiros melhoraram de vida”. Inacreditável, absurdo, de cair o queixo. O infeliz país sucumbe à droga, à violência, à corrupção, à completa imoralidade – sem falar nas coisas concretas, como um sistema de saúde precário, um sistema de saneamento inexistente, um sistema de educação implodido, um sistema de trânsito caótico – enfim, sem falar na INABITABILIDADE GERAL do país! E no entanto este pensamento, a idéia de que “melhoramos”, é praticamente UM CONSENSO!

Perdeu-se completamente a noção: e perdeu-se ASSIM, deste modo – porque as pessoas foram ADESTRADAS, treinadas a reduzir a dissonância, e portanto preferem perder o vínculo com o REAL, em nome de uma “sensação”de que o que se QUER é o que se VÊ. Ou o que se VÊ é o que se QUER, o que dá no mesmo. Mais ou menos como, se passar uma bala perdida zunindo pela sua orelha, nego sair dizendo que “foi uma borboleta linda”: e além de TEIMAR que foi, ainda ficar furioso se alguém ousar lhe mostrar o raio da bala. !

Bem, me parece que a paralaxe representaria, dentro deste contexto, uma forma mais GRAVE de desvio cognitivo, que acomete algumas pessoas. Suponho que a MAIORIA fica na dissonância, e a anula desse modo aí que eu menciono; mas alguns sucumbem e caem na paralaxe, que evidentemente é uma condição mais grave.

O indivíduo que sofre de dissonância cognitiva tenta ANULAR a realidade, para que não haja discrepância entre o que ela É e como ele quer que ela SEJA; o sujeito que sofre de paralaxe cognitiva INVENTA, CRIA uma realidade impossível que dê suporte a algo que ele inventou.

No seu excelente “Menti para os leitores”, o Olavo de Carvalho exibe o exemplo de Dawkins, um exemplo aliás de MÁXIMA contundência (Dawkins e Peter Singer, ambos na minha opinião absolutamente lesados, já irreversivelmente. Aquela estupidez é patológica, não tem mais jeito, esses caras já caíram pro ladelá do muro faz tempo), com a sequência “methinks it is like a weasel”, que ele insere num computador, manda o dito cujo desconstruir e ficar juntando as letrinhas até que a sequência apareça de novo, o que obviamente FATALMENTE vai acontecer, porque ele PRÉ-DETERMINOU que acontecesse e deu a ordem para isto – e pretende usar essa idiotice infantilóide como “demonstração” de que aleatoriamente se constrói uma sequência significativa… Não sei por que não usou a experiência que foi proposta como piada por alguém – a que diz que, dados dez computadores com dez macacos batucando a esmo e um espaço de tempo suficientemente grande, acabariam saindo as obras completas de Shakespeare… !

Ou até, como seria óbvio – embora TAMBÉM não demonstrasse NADA (pois HAVERIA uma ordem, de qualquer modo: uma DETERMINANTE pré-estabelecida, representada por ele, Dawkins, que MANDOU que “fosse feito”e FORNECEU o alfabeto que permite a possibilidade do objetivo, ou seja, já fez parte do trabalho), mas pelo menos não seria uma bagaça ridícula ao ponto do ofensivo – simplesmente enfiasse um alfabeto no computador, desse a permissão para combinações “quaisquer”, aleatórias, incluindo naturalmente repetições, e ficasse esperando sair “methinks it is like a weasel”.

Senta pra esperar, dotô Dawkins! Senta pra esperar que eu lhe aviso que vai DEMORAR!!!!! – !

Como se vê, ESTE já saiu da mera dissonância e entrou na paralaxe – e a paralaxe cognitiva pode, com todo o rigor científico, ser catalogada definitivamente como um delírio.

O sujeito é assaltado e roubado trinta vezes, vive em pânico num edifício todo gradeado, sua em bicas a cada vez que um filho sai pra ir comprar pipoca e demora três minutos, e quando eu me compadeço sabe o que é que me dizem? “Exagero seu”, é o que me dizem! “Também não é tanto assim”, é o que me dizem…

Meu amigo, eu não posso fazer no meu país UM DÉCIMO do que eu faço com toda a segurança no país dos outros, e olha que eu não sou exatamente uma pessoa medrosa – eu tendo a ser “desligada”, não presto muita atenção em nada – só não sou é SUICIDA, e não pretendo morrer no meio da rua com um tiro de orango leso, e sim na minha caminha, se possível for – assim Deus me ajude e proteja! !

Mas eu DESISTI de falar, porque a própria pessoa que RELATA o terror insano que virou a sua vida é a PRIMEIRA a afirmar que “as coisas melhoraram”e que eu sou “uma exagerada”! ! Durma-se com um barulho destes, amigo!

Este foi o CAMINHO seguido pela humanidade, foi a ESCOLHA feita: o caminho que vai da dissonância cognitiva à paralaxe cognitiva. A humanidade vive, hoje, no curto espaço entre a dissonância e a paralaxe.

Voltar me parece que só Deus interferindo, e fazendo a flecha do tempo apontar para trás, desmanchando tudo o que aconteceu e nos botando novamente no século V. Ou IX. Ou em qualquer ponto ANTES da merda que nos assola ter surgido, quando ainda éramos capazes de inteligir INTEGRALMENTE, como era TÃO melhor…

Eu escrevo essas coisas pra ver se me CONSOLO, e na esperança de que possa ajudar a mais alguém saber que não está sozinho no meio dessa hecatombe cognitiva… !

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