Contemplando os Deuses

Um dos conceitos mais difíceis para os modernos ao examinar religiões tradicionais é a presença de múltiplas divindades. Mitos tradicionais são frequentemente usados por modernistas para argumentar contra as doutrinas tradicionais “primitivas”. No entanto, estas dificuldades podem ser resolvidas, e a contemplação dos deuses de religiões tradicionais pode ter recompensas enormes, e pode ser incrivelmente útil para atingir um entendimento metafísico da realidade.

Um desses mitos inclui a doutrina Hindu do Trimurti. O Trimurti inclui os três deuses Brahma, Vishnu, e Shiva, os quais possuem cada um uma função distinta. Brahma é o criador, Vishnu o preservador, e Shiva o destruidor. Cada um destes princípios é absolutamente necessário para explicar o mundo em que vivemos. Que há criação é evidente pois há coisas criadas. Que há destruição é evidente porque coisas que antes existiram cessaram. Que há preservação é evidente porque há um ponto onde pode-se dizer que uma coisa é o que é; se apenas criação ou apenas destruição existissem, não haveria nenhuma estabilidade.

Um leitor perspicaz irá logo entender que apesar destes três princípios (criação, preservação e destruição) poderem ser separados conceitualmente, no mundo material eles sempre aparecem misturados. Por exemplo, uma casa é construída, uma casa existe, e uma casa é dilapidada com o tempo; mas durante o período da construção os materiais usados já estão passando por seu próprio processo de decadência. Uma vez construída a casa está sempre sofrendo algum grau de destruição. E até mesmo durante o período final de sua destruição, por exemplo enquanto sofre uma demolição deliberada, suas partes componentes persistem. No mundo material nenhum princípio é manifestado de forma pura, isto é, não misturado com outros princípios, apesar de que em algum tempo ou lugar um princípio pode estar dominando sobre outros. Ainda, o princípio dominante  pode parecer mudar quando se muda a perspectiva. Por exemplo, quando um organismo está nos estágios iniciais de desenvolvimento, quando o princípio da criação está dominando, é possível que um órgão em particular dentro daquele organismo pode desempenhar uma função que por si mesma é dominada pelo princípio destrutivo mas que ainda contribui para a atividade criativa integral do organismo como um todo. Igualmente, durante a velhice, quando o princípio dominante num organismo é destruição, órgãos individuais podem realizar atividades dominadas pelo princípio criativo. Esta idéia de mudar perspectivas também se aplica à inteira situação cósmica. Nós agora vivemos na Kali Yuga, o fim de um ciclo de manifestação quando o princípio destrutivo reina e dita a direção principal, mas os princípios de criação e preservação ainda estão presentes em certo grau em todas as coisas manifestadas.

Até agora estes três princípios foram examinados apenas enquanto visíveis no mundo material, mas o controle que estes três deuses exercem sobre este mundo é um símbolo para idéias metafísicas. Toda criação vem de Brahma, toda preservação de Vishnu, e toda destruição de Shiva, e cada um destes deuses possui infinito poder à respeito de seus atributos particulares. O poder de Brahma de trazer criação para qualquer recipiente apto nunca é insuficiente. Ainda, como estes deuses existem fora do tempo, eles não estão sujeitods a seus próprios atributos. Isto é, Brahma causa criação mas continua não-criado, sendo a criação um processo de mudança que existe no tempo. Da mesma forma, Shiva causa destruição mas não é destruído, já que destruição é também um processo de mudança que existe no tempo. E Vishnu, a fonte da preservação, não é ele mesmo preservado, porque preservação implica a possibilidade de mudança, a qual Vishnu não é nem mesmo potencialmente sujeito. Para ilustrar este último ponto mais além, os deuses, estando acima do tempo e mudança, não se movem, mas isso não significa que eles estão em repouso da maneira que um homem pode estar em repouso, porque a maneira que um homem pode estar em repouso é entendida pela dualidade movimento/repouso que se aplica apenas ao mundo material. No reino imutável acima do mundo material, estas “ações” dos três deuses em questão não são diferenciações físicas, mas diferenciações conceituais. Elas estão entre as primeiras diferenciações que emergem do supremo inefável, e eles descrevem esta própria emergência (criação), o fato de que eles possuem uma existência e definição contingentemente separada do supremo (preservação), e o fato de que partindo da perspectiva mais elevada esta emergência é uma ilusão e eles irão novamente retornar para o derradeiro (destruição). Deve ser salientado novamente que neste nível (i.e., a contemplação dos deuses em seu estado puro, não como operantes no mundo material) estas “ações” dos deuses são conceituais, não temporais. Os nascimentos dos deuses ocorrem fora do tempo e espaço, e nós podemos apenas aproximar esta verdade dizendo que eles ocorrem em todo lugar e em lugar nenhum, sempre e nunca. Esta eterna e simultânea divisão conceitual dos deuses é espelhada no mundo material pela criação física, preservação, e destruição no tempo. Nós confiamos que até agora a discussão destes três deuses hindus enfraquece a teoria que tradições com múltiplas divindades representam um estágio primitivo do conhecimento humano. A veneração dos deuses é uma forma de entender que o mundo material da mudança é uma expressão limitada de poderes infinitos e eternos.

Como frequentemente ocorre, a tradição Hindu fornece a mais clara apresentação de idéias metafísicas, e é por isso que começamos a dicussão com um exame do Trimurti. No entanto, o mesmo princípio geral é verdadeiro para outras tradições também. Por exemplo, um aspecto do poder da criação pode ser visto na veneração de deuses da fertilidade. Eu digo um aspecto do poder criativo porque deuses da fertilidade, como a grega Deméter, são responsáveis por certos processos criativos, como a produção de colheitas, mas não todos os processos criativos. Isto traz à tona um ponto importante. Na metafísica tradicional, há derradeiramente uma fonte de todas as coisas, um princípio sem o qual não haveria nenhum poder ou existência, ainda que o princípio em si esteja além da existência e de todos os atributos, inclusive o atributo do poder, já que isto iria sugerir agir por algo que não si mesmo, e então constituir uma dualidade. Descendo desta perspectiva derradeira, vê-se o primeiro poder, o primeiro atributo definível que possui o maior grau de universalidade possível para qualquer coisa qualificada. Deste um poder todos os outros poderes são derivados, e este processo de delegação e alastramento para a multiplicidade pode produzir muitas ordens diferentes de deuses com poderes e atributos variáveis. Tradições diferentes oferecem diferentes hierarquias divinas, mas cada uma, desde que mantenha devidas ligações do princípio supremo até as diferentes ordens, é correta. Então a confusão, que pode acompanhar uma comparação de deuses de diferentes tradições quando examina-se os deuses apenas em referência a eles mesmos, desaparece ao examinar-se os deuses existindo de maneira a descrever o inefável. Este princípio supremo, do qual nada é uma parte porque é puro e sem partes, e do qual nada está fora porque nada pode ter uma existência independente dele, é descrito de maneiras diferentes por tradições diferentes porque não há um único modo de defini-lo totalmente, já que uma definição total iria limitar aquilo que é ilimitado.

Tendo em mente o que foi dito sobre as ordens de deuses como representações parciais do supremo, ou talvez como símbolos apontando para o supremo, é necessário examinar a natureza das histórias contadas sobre os deuses em diferentes tradições, ou mitos. Estes mitos podem ser vistos como equivalentes verbais de estátuas produzidas por civilizações tradicionais. Considere uma estátua de Apolo produzida na Grécia antiga: de que maneira é esta estátua uma representação precisa do deus? Pode-se dizer que uma estátua bem feita pode produzir uma representação tão precisa do deus quanto possível dadas as circunstâncias. Esculpida em pedra e portanto existindo no mundo físico, é inconcebível que a estátua pudesse representar o deus totalmente, já que o deus é infinito em poder e incorpóreo. Mas a estátua pode ser um símbolo que aponta para a verdadeira natureza do deus. A autêntica estátua de um deus possui sua autenticidade porque é o recipiente do poder do deus. Para citar Plotinus:

“Eu penso, portanto, que aqueles sábios antigos, que procuravam assegurar a presença de seres divinos pela construção de santuários e estátuas, mostravam entendimento da natureza do Todo; eles perceberam que, apesar desta Alma estar em todo lugar afável, sua presença será assegurada mais prontamente quando um receptáculo apropriado for elaborado, um lugar especialmente capaz de receber alguma porção ou fase dele, algo reproduzindo-o, ou representando-o e servindo como um espelho para se obter dele um vislumbre.”

O deus em si pode ser incorpóreo e sem imagem física, mas ele possui em seu poder infinito toda imagem autêntica de si possível em sua forma potencial. O verdadeiro significado dos mitos é bem parecido. Os mitos não descrevem os totais poderes de um deus, que é infinito, mas a maneira que aquele poder interage com e molda determinadas condições. Um deus possui em forma potencial toda descrição autêntica do comportamento do deus em um dado conjunto de condições, e toda descrição autêntica pode aumentar o entendimento de um homem do deus. Ao invés de sermos capazes de entender estas histórias e imagens por si mesmas, como podiam os homens que primeiro as receberam, nós necessitamos suplementar nosso entendimento com linguagem abstrata. Esta abordagem gera questões sem sentido como “são os mitos verdadeiros?” ou “são os deuses reais?” Os eventos descritos nos mitos podem nunca ter ocorrido no mundo material, podem nunca ter entrado no reino do tempo, mas eles existem eternamente na essência do deus. Mito é uma representação temporal do que não possui começo ou fim, assim como uma escultura tradicional é uma representação espacial do que não possui dimensão.

Há mais um ponto a enfatizar neste assunto. É possível para um moderno encontrar prazer enquanto examina o belo e elaborado florescer das imagens míticas, mas depois encontrar sentimentos de desespero quando avisado que os deuses e seus lares celestiais não possuem uma existência corpórea, e que não podem ser percebidos por nenhum dos sentidos. Parece quase como se algo foi perdido. Este sentimento de perda significa grande ignorância e extremo apego ao mundo material, pois os deuses podem não possuir aparência física, mas eles possuem toda a beleza de cada uma de suas representações físicas em seu infinito poder.

Portanto há uma cadeia de simbolismo levando para o alto através de diferentes níveis da realidade. Os mitos e representações artísticas dos deuses são símbolos de, e apontam para os próprios deuses. Os deuses são símbolos de, e apontam para o um poder que governa tudo. Este um poder é um símbolo de, e aponta para o supremo não manifestado além do poder e da descrição. Em civilizações tradicionais todas as atividades humanas e ocorrências naturais estão ligadas aos deuses e seres incorpóreos subordinados. Esta visão de mundo é um reconhecimento da progressão da realidade através de estados cada vez mais qualificados, e é orientada verticalmente. A visão de mundo moderna é orientada horizontalmente, de forma que procura por causas apenas no mundo material, e consequentemente apenas persegue metas que estão no mesmo nível. Quase todas as atividades modernas visam apenas moldar o mundo material de modo visto como vantajoso. Em civilizações tradicionais quase todas as atividades visam criar ou fortalecer laços com entidades ou forças em níveis mais altos da realidade. Em tais civilizações a vida é organizada em torno de festivias devotados a diferentes deuses, e também de tempos que são particularmente auspiciosos para receber as bençãos de um deus em particular. São feitos sacrifícios dos primeiros frutos, reconhecendo que embora o homem possa ter trabalhado por suas plantações, a causa principal de seu crescimento é algo fora do físico. Canções são cantadas porque um deus  pode achá-las agradáveis e se juntar à companhia dos cantores. É dado pouco valor ao mundo material se comparado ao divino  quando é entendido que todas as coisas no mundo material dependem do divino para sua existência. No entanto, esta visão não leva para a frequentemente criticada doutrina de dualidade irresolúvel espírito-corpo, pois é entendido que o divino possui a possibilidade total do mundo material em seu poder, e que o mundo manifestado é na verdade apenas uma possibilidade contida naquele poder, apenas separada da união total com todas as outras possibilidades por uma ilusão.

Em sociedades tradicionais a relação com os deuses governa um grande grupo de atividades, incluindo muitas que podem ser vistas como exteriores ou físicas, como arar um campo, lutar uma batalha, etc. Alguns podem apontar que tais conexões sãoimpossíveis na situação atual, e apesar de haver alguma verdade nisto, não devemos esquecer que a pura contemplação é a mais elevada forma de conexão com os deuses, e é por este tipo de conexão que devemos trabalhar. As grandes tradições do mundo nos deixaram com uma riqueza de doutrinas sobre a natureza dos deuses, e estas doutrinas representam os mais elevados objetos de contemplação, já que são transcendidos em contemplação apenas quando a dualidade de sujeito e objeto foi transcendida em si mesma, isto é, quando o mais elevado estágio de avanço espiritual foi atingido.

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