O Fim de um Ciclo



Doutrinas tradicionais nos dizem que o mundo se move através de ciclos, cada ciclo começando com um estado imaculado. Neste ponto o mundo está o mais próximo possível do princípio supremo dadas as condições de sua manifestação. Esta é a Idade Dourada do mito, quando os homens eram livres das más ações e deficiências, e tinham contato regular com os deuses. Nós estamos agora perto do fim de um ciclo, na idade conhecida no Hinduísmo como a Kali Yuga. Esta idade é marcada por uma inversão satânica de valores e caos e deformidade em geral. Uma vez que o ciclo tenha antingido o ponto mais baixo há uma grande reversão. O paraíso é recuperado, e uma nova Idade Dourada nasce. No novo ciclo há uma nova humanidade, mais uma vez em contato direto com o divino. O fim de um ciclo deve ser visto como Armageddon, como o fim de um mundo.

Mas como este fim, este novo começo, deve ser visto? É errado pensar que deuses irão tomar corpos materiais e caminhar por nosso mundo, destruindo os perversos e abençoando os virtuosos. Tampouco devemos necessariamente esperar uma destruição literal da terra e fim dos tempos.

A respeito do primeiro assunto, os deuses, ou poderes metafísicos que governam nosso mundo, existem à parte dele. Eles operam sem paixão ou contaminação, eternamente imutáveis. Quando, nos tempos antigos, era dito que se tornavam visíveis, não eram os deuses que desciam ao mundo material, mas os visualizadores humanos que aumentavam sua percepção para além do mundo material. Já que os deuses são sem lugar ou extensão, eles são potencialmente disponíveis para todas as coisas; indivíduos recebem a influência dos deuses em diferentes graus apenas por causa de suas próprias condições limitadoras. E assim o é no final de um ciclo: os virtuosos são aqueles que cortam todos os laços e vêem o mundo através dos olhos do supremo, como indiferenciado deles mesmos.

A respeito do segundo assunto, o fim literal do mundo, deve-se ter em mente que não há nenhum final do tempo no tempo. Isto é, nada pode entrar no tempo e em seguida levar um fim a ele. E como todas as coisas materiais estão necessariamente no tempo, conclui-se que nenhuma coisa ou processo material pode levar um fim ao tempo. Tempo não pode ser terminado em relação a si mesmo, pois se seu fim é definido como aquilo que vem após o tempo, então seu fim é definido como algo que sucede outra coisa, e esta definição pressupõe a existência do tempo, pois é somente no tempo que uma coisa sucede outra. Portanto o fim do tempo seria no tempo, e na realidade nunca poderia ser.

Este ponto pode ser mais esclarecido usando a imagem da orientação horizontal e vertical. O tempo é uma expansão horizontal indefinida, contendo a totalidade das entidades do tempo. Acima desta expansão está o mundo incorpóreo imutável. O fim de um ciclo não é uma ação de uma coisa na expansão do tempo sobre outra, mas a reversão das coisas no tempo para sua fonte supra-temporal. Esta reversão é um entendimento da natureza contingente e ilusória de todas as concepções dualísticas. Tempo é um reflexo da eternidade, mas o espelho e o objeto original são um só. No final de um ciclo objetos materiais não são destruídos em suas naturezas materiais, pois um corpo material sendo desintegrado ou transformado em outro corpo material não constitui nenhum tipo de transcendência. A nova humanidade vê todas as coisas materiais como realmente são, como contidas simultaneamente no poder infinito do supremo, e desta forma pode-se dizer que coisas materiais podem ser “destruídas,” exceto que este mesmo estado (isto é, estar contido no supremo) na verdade nunca parou.

Uma das mais claras explicações desta nova Idade Dourada vem da tradição Platônica. Na metafísica Platônica, a realidade é dividida em mundo do Intelecto, e mundo da Alma, e mundo da matéria. Intelecto Puro é eterno e imutável. É a fonte de todas as coisas e possui todas as coisas em forma potencial, ou arquétipa, de seu infinito poder. Todas as idéias individuais existem no puro Intelecto, mas este Intelecto ainda é uma unidade. É imutável porque se conhece, e portanto a todas as coisas, simultaneamente. Almas também são eternas, mas elas experimentam mudança. Elas animam o mundo material, e atravessam períodos de degeneração e purificação. Objetos materiais são mutantes e de duração limitada. Eles recebem formas, as idéias contidas no Intelecto, mas as mantêm por um período limitado de tempo antes que o caos se reafirme e a forma seja perdida. Os Platonistas identificam a Idade Dourada com o reino do Intelecto, e portanto a meta de sua filosofia é um retorno à Idade Dourada, pois eles defendem o retiro da alma do mundo material e sua instalação no puro Intelecto. Aqui os filósofos vêem coisas temporais do ponto de vista da eternidade, assim como os homens normais concebem o eterno em termos de duração temporal.

Isto deve clarificar um pouco sobre o advento da profetizada nova Idade Dourada. Após a destruição final do velho, a nova humanidade irá ser uma raça de filósofos (ou de sábios, ou heróis, qual termo for preferível), cheios de sabedoria e justiça, para os quais cada coisa no mundo é um símbolo apontando para o supremo. Será notado que quando identificada com o puro Intelecto a Idade Dourada está fora da manifestação temporal, e portanto não faz sentido falar sobre sua duração. Ao invés disso é uma questão de por quanto tempo seres humanos podem manter um contato efetivo com o atemporal, e é mais preciso falar de um retorno à Idade Dourada do que de um retorno da Idade Dourada. No entanto, deve também ser notado que apesar do retorno ao estado imaculado ser um processo espiritual, não material, destruição física de grande magnitude em nosso ambiente natural e artificial pode muito bem ocorrer em conjunção com a reversão espiritual.

E finalmente, apesar da humanidade como um todo poder ser forçada pelas condições de Kali Yuga a uma degeneração espiritual, aqueles poucos dispostos a extirpar tudo podem ganhar a Idade Dourada em qualquer tempo.

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