Sobre a Visão Mágica da Vida

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O título do seguinte ensaio não deve induzir o leitor a atribuir uma validade universal para as idéias encontradas nele. Estas são em vez disso “verdades” para serem assumidas em uma dada fase do desenvolvimento, em visão de uma preliminar liberação e purificação da alma. Tal desenvolvimento pode tomar esta forma especialmente no “caminho do guerreiro” – o kshatriya, para usar o termo Hindu. Uma vez que o fruto de tal disciplina tenha sido atingido, várias perspectivas podem mudar e o ponto de vista próprio da verdadeira realização transcendente pode ser acessado. 

 

 

Auto-superação, além de ser o objeto de ritos, está conectado com uma renovada, heroicizada percepção do mundo e da vida, não como conceito abstrato da mente, mas como algo que pulsa no ritmo de seu próprio sangue. É a sensação do mundo como poder, ou a sensação do mundo como ato sacrificial. Uma grande liberdade, com ação como a única lei. Em todo lugar seres feitos de força, e, ao mesmo tempo, uma respiração cósmica, um senso de altura, de ar

Ação deve ser liberada. Deve ser realizada em si mesma, desinfetada de febre mental, limpa de ódio e desejo. Estas verdades devem penetrar na alma: não há lugar para ir, nada para pedir, nada para esperar, nada parar temer. A mundo é livre: Metas e razões, “evolução”, destino ou providência – tudo isso é névoa, uma invenção de seres que ainda não sabiam caminhar sozinhos e precisavam de muletas e suportes. Agora você será deixado para si mesmo. Você deve perceber você mesmo como um centro de força e saber que a ação que não é mais ditada por este ou aquele objeto, mas pelo motivo de si mesma. Você não será mais movido: desapegado, você irá se mover. Os objetos ao seu redor irão deixar de ser objetos de desejo para você – eles irão se tornar objetos de ação. Gravitar ao redor de coisas que não existem mais, o impulso de uma vida irracional irão finalmente se tornarem extintos: o que irá cair é também a sensação de esforço, de correria, de fazer, a dolorosa seriedade e necessidade, o trágico sentimento e o vínculo Titânico: em outras palavras a própria grande doença, ou seja o sentido humano da vida. Uma calma superior irá surgir. Disto virá ação, pura e purificadora ação: é uma ação pronta, a qualquer hora e qualquer lugar, para tomar qualquer direção. É uma ação flexível, livre para com ela mesma, superior a ganhar e vencer, sucesso e falha, egoísmo e altruísmo, felicidade e tristeza; ação solta de vínculos, de identificação, de apego. 

Em tal ação você será capaz de encontrar purificação, já que de acordo com ela o “indivíduo” não conta mais e porque ela te leva além de ambos conhecimento abstrato e o ímpeto de forças inferiores. Não fantasmas de conceitos e idéias e “valores” – mas uma visão sem pontos de referência,tendo como seu único objeto direto a própria realidade. Ação acordada como uma coisa elementar, simples, irrestrita. Poder de comandar e poder de obedecer: ambos absolutos, para serem quintessencializados da forma que é requerida para evocações e identificações, assim como para aqueles imediatos, imateriais encontros com “presenças”, nos quais algumas podem ascender e desaparecer, poderosas e invisíveis, enquanto outras se precipitam em formas corpóreas.  

Na vida ordinária é necessário seguir uma disciplina capaz de perceber a inutilidade de todo sentimentalismo e todas as complicações emocionais. Em lugar deles, um claro olhar e uma ação apropriada. Como um cirurgião, em vez de compaixão e piedade, uma operação que resolve o problema. Como um guerreiro ou atleta, em vez de medo e irritação irracional em face do perigo, a resolução instantânea de fazer o que está em seu poder. Misericórdia, medo, esperança, impaciência, ansiedade – estes são todos desmoronamentos espirituais que nutrem poderes ocultos vampíricos de negação. Pegue a compaixão, por exemplo: ela não elimina nada do infortúnio do outro, mas o permite perturbar seu espírito. Se você pode, então aja: assuma a pessoa do outro e dê a ele sua força. Do contrário, se desligue. É o mesmo para o ódio: quando você odeia, você se degrada. Se você deseja, se seu senso de justiça exige, destrua e corte fora, sem seu espírito ficar perturbado. Mais adiante, lembre-se que odiando você decai. O ódio altera e o previne de controlar a influência de seu oponente; pior ainda ele te abre para a influência dele, a qual você pode em vez disso conhecer e paralizar, se você permanecer calmo, sem reagir. Aqueles que querem o conhecimento e o poder do bem e do mal devem destruir sua “paixão” pelo “bem” ou pelo “mal”. elas devem ser capazes de darem como um ato puro, como um presente absoluto, não pelo sentimento agradável de simpatia ou piedade; eles devem ser capazes de atacarem se ódio. “Eu estou nos fortes a força que está livre de desejo e paixão” – balam balvatâm asmi kâmarâgavivarjitam – isto é o que Krishna diz sobre si mesmo como aquela força e pureza sobre a qual nada tem poder, diante da qual nem a lei de ação e reação pode tomar posse. Assim que aquela febre, a escura força do instinto, de desejo ou aversão, remove uma pessoa de sua disposição interna central, até mesmo o maior dos deuses é arruinado. 

Desprendimento, silêncio, solidão – isto é o que prepara a liberação desta visão da vida e do mundo. 

Distância entre seres humanos. Não reconhecer a si mesmo em outros: nunca se sentir superior, igual ou inferior a eles. Neste mundo, os seres estão sozinhos, sem lei, sem escapatória, sem pretexto, vestidos apenas de suas forças ou fraquezas: picos, pedras, areia. Esta é a primeira liberação da visão da vida. Superar a contaminação fraternal, a necessidade de amar e sentir amado, de sentir junto, de sentir igual e unido a outros. Livre-se disto. Começando em um certo ponto você não irá se sentir unido a alguém por causa de sangue, afeições, país, ou destino humano. Você irá se sentir unido apenas com aqueles que estão no seu mesmo caminho, o qual não é um caminho humano, não tendo nenhuma consideração por maneiras humanas. 

Quando você olhar ao redor, tente captar a voz do que é inanimado.”Como são bonitas, estas forças livres que ainda não foram manchadas pelo espírito!” (Nietzsche) 

Não diga que estas forças ainda “não foram”, mas que “não estão mais” manchadas com “espírito”, e entenda que por “espírito” é significado o que é “irreal”. Em outras palavras, tudo que o homem, com seus sentimentos, pensamentos, medos, e esperanças projetou na natureza para torná-la mais íntima, ou para fazê-la falar a mesma língua. Abandone tudo isto e tente entender a mensagem das cosias, especialmente onde elas parecem fora de lugar, nuas, mudas – onde não tenham almas porque são algo maior que “alma”. Este é o primeiro passo em direção à liberação da visão do mundo. No plano da mágica você irá conhecer um mundo que retornou ao livre, intensivo, e essencial estado, em um estado em qual a natureza não é natureza, nem o espírito “espírito”; em qual não há coisas, homens, especulações sobre “deuses” – mas poderes – e a vida é um caso heróico de todo momento, feito de símbolos, iluminações, comandos, ritual, e ações sacrificiais. 

Neste mundo onde não há mais um “aqui” ou “ali”, ou apego; tudo é infinitamente igual e infinitamente diverso, e ação origina de si mesma, pura e oculta. O “Vento,” o “Hálito” (O Hálito do Hermético “Grande Verde”) leva tudo no sentido de um sacrifício, uma oferenda, um luminoso e maravilhoso ritual, entre zonas de atividade tão calmas como o sono mais profundo, e imobilidade tão intensa quanto o mais veemente tornado. 

Aquilo que é “humano” aqui se derrete como uma memória obscura de tristeza e como espectro de um longo pesadelo. O Anjo acorda, o Gelo Antigo: imobilidade e um ritmo vertiginosamente lento resolve toda tensão; este é o limiar e a transfiguração; além dele jaz – o mundo do eterno. 

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