Uma Alegoria de Orgulho e Presunção

Sobre o texto e seu autor: David Myatt, um indivíduo extremamente inteligente, versátil, engajado em suas metas, é um homem natural da inglaterra que durante sua vida fez várias coisas reprováveis, como apoiar atos terroristas contra inocentes (seus textos já foram publicados em sites terroristas islâmicos), se meteu com forças satânicas extremamente malignas, apoiou a rivalidade entre raças em seu país, entre outras. E agora, após isso tudo, e após ver quanto sofrimento tais coisas podem causar escreveu o texto abaixo reconhecendo seus erros. Espero que isso mostre para as pessoas que sofrem de extremo ódio e radicalismo uma visão diferente. Este texto não está aqui para apoiar David Myatt mas para expor suas idéias. É também uma boa amostra de como está a situação da humanidade, quando pessoas inteligentes e úteis para a sociedade querem destrui-la.

por David Myatt


Eu lembro de você mencionar em algum lugar que você considerava sua própria vida algo como uma alegoria a respeito de nossas falhas humanas. Você pode elaborar?

 

O que eu quis dizer foi que talvez eu sou um exemplo de como – tantas vezes – nós falhamos em aprender de nossa própria experiência, continuamos fazendo os mesmos erros, e, apesar de algum progresso, alguma evolução, em direção à empatia, compaixão, e a cessação do sofrimento, nós frequentemente parecemos, e frequentemente o fazemos, regredir porque nós ainda estamos presos a abstrações, a desejos, aos nossos sentimentos os quais mesmo que os entendêssemos ainda nos fazem cometer erros, falhas, e ainda nos motivam a interferir.

Então, apesar de todo o meu conhecimento, derivado de pathei mathos – de sentir e saber o sofrimento que eu pessoalmente causei e que é causado por dedicação a abstrações, seja lá o quanto boas as intenções de uma pessoa possam aparentar ser – e apesar de períodos de buscar viver tal conhecimento, eu frequentemente, até mesmo nos últimos anos passados, regressei a avançar em função de alguma abstração. Um dos erros, dos enganos, aqui é a soberba: a arrogância de sentir, de supor, que nós como meros indivíduos podemos fazer uma diferença se agirmos de uma certa forma, ou se nos engajarmos de uma forma prática em assuntos que estão além de nossa vizinhança imediata e além de nossas pessoais, individuais, vidas. Isto é, se nós interferimos em algum assunto que não é direamente pessoal, imediato e enraizado na localidade onde vivemos e temos nosso ser.

Nas três décadas passadas, eu aprendi muito – sobre eu mesmo, pessoas, o mundo, o Cosmos – e algum deste aprendizado foi por causa do meu envolvimento, minhas muitas e várias peregrinações (pessoais, políticas e religiosas, se nós quisermos categorizá-las de acordo com alguma abstração). Muito deste aprendizado eu lutei para expressar em minhas cartas pessoas, em minha poesia, em meus escritos sobre o Caminho Numinoso, especialmente aqueles escritos logo antes de, e seguindo, a trágica morte de Francine.

Mas bem algumas vezes nos seis ou mais anos passados destes aprendizados pessoais, esta descoberta, este vir-a-conhecer a empatia e compaixão e as causas do sofrimento, eu reverti novamente para velhos hábitos, velhas maneiras de vida, estupidamente enraivecido como eu frequentemente estava com alguma desonra, em algum lugar, manifestada por alguma ou muitas pessoas desonrosas, e sentindo como eu estupidamente senti que coisas que eu disse, coisas que eu fiz, coisas que eu escrevi, poderiam ou talvez fizessem alguma diferença. Então eu algumas vezes vivi um caminho diferente pois frequentemente eu senti profundamente que era correto para mim fazer tais coisas por causa de lealdade e honra; por causa de um juramento jurado alguns anos antes. E então houve lá muito conlfito, dentro de mim, porque tais coisas – tais aderências a tal lealdade e honra – pareciam contradizer, e em verdade contradiziam, a simples sabedoria de Wu-Wei, a empatia, a compaixão, a numinosidade, a humildade que eu havia re-descoberto através de minhas peregrinações, através de minha aventura de Prometeu de três décadas e através e por causa do sofrimento, da morte, do suicídio, de entes amados.

Por isso a alegoria: de presunção; de fraqueza; de soberba; de teimosia e estupidez; até mesmo, talvez, de hipocrisia. De uma falha em viver como se pensa que deveria. De um apego a abstrações. Isto pode ser humano – ou melhor, pode ser parte de nossa presente natureza humana. Mas isso não é desculpa, especialmente para mim, alguém que pontificou tantas vezes (especialmente em anos recentes) sobre como nós deveríamos e poderíamos nos evolucionarmos, e portanto desenvolvermos nossa natureza humana. Portanto os sentimentos pessoais de fraquezas, de teimosias, de estupidez, e até de hipocrisia.

O problema tem sido – e às vezes ainda é – triplo. Primeiro, há o desejo pessoal, vindo do caráter pessoal, de desafiar a desonra, e em assim fazer defender o que é sentido ou acreditado ou percebido como nobre, honrado e bom. Derivada disto, há a questão de lealdade derivando de um juramento honrado. Segundo, há o entendimento, o conhecimento, a empatia, surgindo em parte do caráter pessoal e parte de pathei mathos: de um conhecimento dos erros da experiência.

Terceiro – um adjunto do problema de honra e lealdade que eu tenho, em outros lugares, discutido várias vezes – tem havido o problema de haver, pelos passados sete ou mais anos, uma certa imagem pública percebida: não desejando expressar, através de vários meios e via vários médiuns, certas coisas pessoais, certas conclusões pessoais, as quais poderiam ou iriam ter diminuído a imagem e as quais eu acreditava poderiam danificar um certo Caminho e aqueles seguindo aquele Caminho, e as quais poderiam ter dado conforto e ajuda e até mesmo alegria àqueles desonrosos que estavam engajados em uma guerra contra aquele Caminho e aqueles quem o seguiam e que lutavam para implementá-lo no mundo. Mas: isto era vaidade? Bobagem? Arrogância? Presunçã? Provavelmente. E houve também um tempo quando – acreditando nisto – eu expressei, e distribuí, através de vários médiuns públicos, como a Internet, algumas de minhas recentes conclusões, sentimentos, dúvidas e entendimentos, e vários escritos recentes sobre o desenvolvimento de meu próprio Caminho Numinoso, apenas para mais cedo, ou mais tarde, tentar retirá-los, ou remover as datas da escrita de alguns deles, desta forma – talvez – confundido alguns indivíduos sobre minhas próprias intenções, crenças e etc.

Mas agora, agora enquanto o segundo aniversáro do suicídio de Francine se aproxima e a estação de uma Inglesa primavera vem aclarar, brilhar e esquentar, há novamente o sentimento de humildade, uma florescente e bem necessária tranquilidade interior, e um certo renovado desejo de apenas-ser: parar de preocupar ou me ocupar com imagem, com papéis, e com consequências, percebidas, imaginadas, que acreditei, ou outra coisa. Falar e escrever o que está agora em meu ser: aquilo que é a essência do meu ser, meu novo caráter, criado através de minhas peregrinações e através e por causa do sofrimento, da morte, do suicídio, de entes amados. Mas, é claro, isto pode ser apenas o desgaste da idade… Ou até apenas mais uma mudança que pode ser ela própria modificada novamente por uma revisão do comportamento anterior, e portanto mais um engano, mais uma humana, pessoal, falha; um mais exemplo de meu orgulho, minha teimosia, minha estupidez, minha arrogância.

Eu espero que não seja. Mas eu senti e falei – e escrevi – isso antes, e fui provado errado.

 

Em um diálogo anterior – alguns anos atrás – você mencionou que você se tornou bem pessimista sobre o futuro. Suas visões mudaram nos anos que passaram?

 

Eu ainda sou bem pessimista sobre o futuro de ambos nossa espécie humana, e o destino da Natureza: da vida com a qual dividimos este planeta. Na verdade, bem mais pessimista do que eu era.

Por que? Por causa da alegoria de orgulho e presunção, que me levou para e que leva para não-pessoais, uma abstrata, interferência nas vidas, nas assuntos, dos outros. As intenções por trás de tais interferências não-pessoais são irrelevantes, pois o efeito é sempre, sempre, sofrimento, destruição e morte: para outros seres humanos; para a outra vida com a qual dividimos este planeta; para o próprio planeta.

Portanto, de acordo com esta maneira velha de ser, existe sempre, sempre, algum “inimigo” que tem que ser combatido mas que não nos desonrou em algum assunto pessoal, ou não nos afetou em uma desonrada e pessoal e íntima maneira, e tal inimigo é ou se torna demonizado e despersonalizado. Sempre há, sempre, “sacrifícios” – envolvendo sofrimento, destruição e morte – que tem que ser feitos em nome de alguma abstração, como alguma “nação”, ou algum ideal (como democracia e/ou “liberdade”). Há sempre, sempre, uma luta por um impessoal abstrato “progresso” – ou alguma “mudança” em voga – que sempre envolve nós nos distanciarmos da relação próxima com a Natureza, que é sempre como húbris e envolve uma perda de empatia, e que quase sempre parece diminuir o numinoso. Há sempre, sempre uma perseguição a nossos próprios desejos, nossas próprias necessidades percebidas, nossa ganância, na maioria das vezes independentemente das consequências para outros seres humanos, para a outra vida com a qual dividimos este planeta que é atualmente nosso lar.

Eu sou pessimista porque apesar das causas do sofrimento serem conhecidas e entendidas, apesar de nós sentirmos ou sabermos a fragilidade da vida, da Natureza, apesar de sentirmos ou conhecermos nossa própria ganância, estupidez, arrogância e orgulho, nós continuamos cometendo os mesmos erros, os mesmos enganos; continuamos tentando os mesmos falhos ideais e abstrações; continuamos estupidamente a acreditar que “desta vez, será diferente…” Então nós continuamos a assassinar e mutilar indivíduos em guerra impessoal após guerra impessoal. Então nós encontramos alguma justificação – ou inventamos algumas mentiras – para invadir e ocupar outra terra, ou para usar força brutal para impor “nossa” visão, nossos ideais, nossa maneira, sobre outros, acreditando que estamos certos. Então fazemos discursos eloquentes ou escrevemos folhetos impetuosos e artigos e propaganda para convencer e persuadir outros, apelando para suas emoções, ou seus instintos básicos – ou, espertamente de uma forma manipulativa, apelar para sua “natureza boa”.

Então nós continuamos em nossa húbris, nossa ganância, de explorar a Natureza, assim como então continuamos a explorar outros seres humanos e a outra vida com a qual dividimos este planeta. Mais vida – humana ou não – já foi destruída por nós nos últimos cem anos do que no total dos últimos cinco mil anos.

É como se, como uma espécie, nós somos defeituosos: que os indivíduos, a minoria, que claramente vêem e que claramente entendem e que falam e escrevem sobre compaixão, empatia e sofrimento – uma minoria que surge em cada geração, cada século, geração após geração, século após século – é deixada de lado, tragada quando a febre, nascida de defeitos, novamente flui conosco e nós, en masse, avançamos para a guerra, ou vamos em diereção de alguma cruzada ou outra, ou seguimos algum líder ou outro, ou avançamos para explorar algum novo recurso, ou aderir a alguma causa ou outra, ou exigir revolução, mudança ou a implementação de algum ideal ou abstração recentemente manufaturado.

Milhares de anos de literatura, filosofia, poesia, música, Arte – milhares de anos de exemplos de amor humano, de adversidade, sofrimento, miséria, fortitude, morte, milhares de anos de alegorias, da presença do numinoso, de cultura – não parecem ter feito muita diferença para a maioria, exceto algumas vezes como exemplos que os propagandistas, os hipócritas, os espertos, os desonrados, podem usar, de tempo em tempo, se server seus propósitos, sua causa, sua abstração, seu desejo, sua ganância, sua cruzada, sua guerra.

Pois a inescapável verdade parece ser para mim que – apesar de todas as nossas palavras, faladas e escritas – nós somos ainda apenas animais: que todas as nossas pretensões, toda nossa pretensão de ser “civilizado” ou “aculturado”, é apenas isso, pretensão: mero espetáculo na pior das hipóteses, e na melhor, apenas um breve interlúdio, um breve seguimento de uma mais evoluída forma de vida; um interlúdio, um caminho, a qual termina, a qual é esquecida, quando revertermos de volta para o tipo, para sermos animais que andam eretos, em forma humana, bárbaros que podem falar, escrever, conversar e que manufaturam e usam máquinas.

Talvez nós animais humanos iremos apenas continuar a devastar este planeta, que é nosso lar – até que nós nos movamos para a extinção ou até que a natureza esteja tão molestada, tão danificada por nós que nós destruímos o lar, Natureza, do qual dependemos e que nos deu e nos dá vida.

No entanto é tentador esperar, esperar que nós podemos e iremos mudar; ainda mais tentador acreditar que há um propósito, escondido ou não: que há uma existência após nossa morte, um Deus, Allah, ou algum supremo ou supra-pessoal Ser. A crux aqui é acreditar. Supor; presumir. E se não podemos então acreditar, então presumir?

Como eu escrevi recentemente em uma missiva para um amigo:

Quem está lá para ouvir os choros de angústia, de tristeza – quem para saber nosso saber de nossos enganos, experiência – se não há Deus, nenhum ser numinoso supra-pessoal ou seres além deste reino causal onde nós, mortais, apenas tão brevemente existimos?

O que há, de significado? Exceto que, talvez, nós damos a nós mesmos o que nós, acreditamos, aceitamos. Ou aquilo que impomos, sobre nós mesmos, sobre outros – Vida – através de manufaturadas, irreais, abstrações.

O que há, então, além dos mais breves dos breves numinosos momentos capturados em um momento de alegria; em alguma preciosa presença de música, de Arte, de compartilhar, de um amor pessoal; de um momento talvez por acaso prolongado quando nós, vivendo, encapelamos adiante além de nossos seres causais para tocar: algo.

O que restou de tais momentos quando os anos, as décadas, gastaram cada instantaneidade de cada momento até que apenas a neblina da memória restasse, como daqueles quentes dias de verão da juventude quando pelo baixio do rio nós descansamos, nosso mundo inteiro aquele gorgolejante rio repleto de pedras, o jardim de brincadeiras e nosso acolhedor seguro lar?

O que há de significado em tais momentos relembrados? Apenas, talvez, o significado sentido, possuído, então – o qual lentamente, lentamente nos deixa enquanto a idade começa a nos desgastar.

O que há para fazer além de continuar a viver, a buscar, procurar, por tais momentos, novamente: sendo levado por, talvez contra, a corrente enquanto é sentida aquela Vida novamente que vivia então – por, em – tal apressamento de Tempo causal. E quando a energia de nossa uma vida começa a fluir para fora – para fora buscar, procurar, sentir, fora em direção aquele fadado inverno à espera – então nós, sozinhos, nos acalmamos para sentar, reclinar, ou deitar, para sonhar, para sentir novamente, aquelas memórias que tanto nos inundou, então, naquele precioso Tempo de Vida.

Mesmo assim, ainda assim eu não posso em minha própria fraqueza, em meus próprios sonhos, parar de esperar: sentindo que cada numinoso poema, cada numinosa peça de música, cada numinoso trabalho de Arte, cada conto de tragédia e remorso, cada ato de amor, cada ato de expiação, de humildade e compaixão, cada despertar de empatia, tem significado e dá significado e é portanto uma evolução; mais um exemplo para mais uma pessoa em algum lugar, em alguma época, e que no não-tão-distante futuro cada uma dessas singulares percepções do numinoso irão se juntar para formar uma cultura global que tem o poder alegórico, sobre o tempo causal, de nos transformar, como seres humanos e em masse, então começando nossa evolução para compassivos, empáticos, seres humanos.

David Myatt
2454549.093

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