A Irracionalidade de Richard Dawkins

A Irracionalidade de Richard Dawkins

por Francis J. Beckwith

quarta-feira, 20 de junho, 2007, 6:47

Em seu livro de 2006, The God Delusion (Deus: Uma ilusão), Richard Dawkins lamenta o caminho da carreira de Kurt Wise, que tem, desde 2006, mantido as posições de professor de ciência e teologia e diretor do Centro pela Teologia e Ciência no Southern Baptist Theological Seminary em Louisville, Kentucky. Anteriormente a isso, Wise havia lecionado por muitos anos em Bryan College, uma pequena universidade evangélica em Dayton, Tennessee, à qual foi dada o mesmo nome de William Jennings Bryan, candidato Democrático presidencial por três vezes e assessor jurídico no julgamento de 1925 Scopes “Monkey Trial.”

De acordo com Dawkins, Wise foi por um tempo um promissor jovem acadêmico que havia conquistado um diploma em geologia (pela Universidade de Chicago) e diplomas avançados em geologia e paleontologia pela Universidade Harvard, onde ele estudou sob o altamente aclamado Stephen Jay Gould. Wise é também um criacionista da terra-jovem, o que significa que ele aceita uma interpretação literal dos primeiros capítulos do Genesis e mantém que a terra tem menos do que dez mil anos. Não é uma posição que eu mantenho, e por essa razão eu sou simpático para com o espanto de Dawkins com o porquê de Wise ter abraçado o que parece para muitos Cristãos uma falsa escolha entre uma interpretação controversa da Escritura (criacionismo da terra-jovem) e abandonar o Cristianismo de uma vez.

Em um ponto em sua carreira, Wise começou a entender que sua leitura da Escritura estava incosistente com o entendimento científico dominante da idade da terra e do cosmos. Ao invés de abandonar o que eu creio ser uma escolha errada, ele continuou a abraçá-la, mas isto leva a uma crise de fé. Wise escreve: “Ou a Escritura era verdadeira e a evolução estava errada ou a evolução era verdadeira e eu preciso jogar fora a Bíblia. . . . Foi lá naquela noite que eu aceitei a Palavra de Deus e rejeitei tudo que pudesse contrariá-la, incluindo a evolução. Com aquilo, em grande tristeza, eu joguei no fogo todos os meus sonhos e esperanças na ciência.” Então Wise abandonou a possibilidade de assegurar uma cadeira em uma preciosa universidade ou instituto de pesquisa.

Dawkins é perturbado pelo julgamento de Wise e suas repercussões em suas óbvias promessas como acadêmico, pesquisador, e professor. Escreve Dawkins: “Eu acho terrivelmente triste . . . a história de Kurt Wise é simplesmente patética – patética e desprezível. A ferida, para sua carreira e para a felicidade de sua vida, foi auto-infligida, tão desnecessária, tão fácil de escapar. . . . Eu sou hostil com a religião por causa do que ela fez a Kurt Wise. E se ela fez isso com um geólogo educado em Harvard, apenas pense no que pode fazer com outros menos talentosos e menos bem armados.”

É claro, alguns Cristãos podem estar tão incomodados quanto Dawkins. Então não é necessário ser um ateísta para levantar questões legítimas sobre a jornada intelectual e espiritual do professor Wise. Mas, dado o ateísmo de Dawkins, há algo estranho sobre seu lamento, pois ele parece requerer que Dawkins aceite algo sobre a natureza dos seres humanos e a lei moral natural que seu ateísmo parece rejeitar.

Deixe-me explicar o que quero dizer. Dawkins duramente critica Wise por aceitar uma crença religiosa que resulta em Wise não tratar a si mesmo e seus talentos, inteligência e habilidades de uma maneira apropriada para seu florescimento total. Isto é, dada a oportunidade de afiar e nutrir certos dons – por exemplo, habilidade intelectual – ninguém, incluindo Wise, deveria desperdiçá-los como resultado de aceitar uma falsa crença. A pessoa que viola, ou ajuda a violar, esta norma, de acordo com Dawkins, deveria ser condenada, e nós todos deveríamos lamentar esta trágica negligência moral da parte de nosso companheiro(s). Mas o emissão desse julgamento sobre Wise por Dawkins faz sentido apenas sob a luz dos talentos particulares e o tipo de ser que Wise é por natureza, um ser que Dawkins parece acreditar possui certas capacidades e propósitos intrínsecos, o rompimento prematuro dos quais seria uma injustiça.

Então o ser humano que desperdiça seus talentos é um que não respeita seus dons naturais ou as capacidades básicas, das quais a maturação e uso apropriado  faz possível o florescimento de muitos bens. Em outras palavras, a noção de “função apropriada,” como coloca Alvin Platinga, juntamente à observação de que certos aperfeiçoamentos enraizados em capacidades básicas foram inadmissivelmente obstruídas de amadurecerem, é assumida no próprio julgamento que Dawkins faz sobre Wise e a maneira que Wise deveria se tratar.

Mas Dawkins, na verdade, não acredita realmente que seres vivos, inclusive seres humanos, possuem propósitos intrínsecos ou são projetados para que se possa concluir que violar a função apropriada de alguém corresponde à violação do dever moral de alguém com si mesmo. Dawkins manteve por décadas que o mundo natural apenas parece ser projetado. Ele escreve em The God Delusion: “Darwin e seus sucessores mostraram como criaturas, com suas espetaculares improbabilidades estatísticas e aparências de design, evoluíram por lentos, graduais graus de simples inícios. Nós podemos agora seguramente dizer que a ilusão de design em criaturas vivas é apenas isso – uma ilusão.”

Mas isto significa que seu lamento por Wise está mal direcionado, pois Dawkins está lamentando pelo que apenas parece ser o abandono de seu dever de nutrir e usar seus dons em maneiras que resultem em sua felicidade e uma aquisição de conhecimento que contribua para o bem comum. Mas porque não existem naturezas projetadas e propósitos intrínsecos, e portanto nenhum dever natural que somos obrigados a obedecermos, as intuições que informam o julgamento de Dawkins de Wise são tão ilusórias quanto o design que ele explicitamente rejeita. Mas isso é precisamente um dos fundamentos pelo qual Dawkins sugere que os teístas são irracionais e deveriam abandonar sua crença em Deus.

Então se o teísta é irracional por acreditar em Deus baseado no que afinal é pseudo-design, Dawkins é irracional em seu julgamento de Wise e outros criacionistas a quem ele sugere reprimenda e correção. Pois o julgamento de Dawkins se baseia numa premissa que – apesar de intransigentemente defendida através de sua carreira – apenas parece ser verdadeira.

(Francis J. Beckwith é um professor associado de Filosofia & Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. Seu mais recente livro é Defending Life: A Moral and Legal Case Against Abortion Choice. Cambridge University Press, 2007).

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