O Apocalipse Esotérico

por Charles Upton, do livro “The System of Antichrist”, Sophia Perennis

                Quando a consciência é centrada no plano da psique, as experiências surgindo no plano material são interpretadas de acordo com se apoiam ou ameaçam nosso senso de identidade, que é psíquico. Quando a consciência começa a ser retirada do plano psíquico para o plano do Espírito – que, como pura Testemunha e puro Conhecimento, necessariamente transcende a experiência – então todas as experiências, incluindo as sensoriais, são entendidas como emanando do nível psíquico, e conhecidas, simultaneamente, tanto como possíveis tentações quanto como reais manifestações de Deus. Enquanto estas experiências possuem o poder de seduzir a consciência para uma re-identificação com o nível psíquico, então reforçando o senso de um limitado, subjetivo experienciador, elas são tentações. Enquanto estas tentações são superadas, os eventos em questão não podem mais serem chamados de experiências, mas são revelados como aspectos, ou instâncias, da Auto-Manifestação do Absoluto.

                No nível psíquico, o mundo que experimentamos é necessariamente interpretado em termos de bem e mal. E já que a consciência fixada no nível psíquico não pode testemunhar esse nível, os conteúdos da psique precisam aparecer de forma “projetada” como os eventos de nossas vidas. (Com todos os seus erros metafísicos, Carl Jung sabia disto, ensinando que “qualquer coisa que seja reprimida é necessariamente projetada.”) Mas quando a consciência começa sua peregrinação do nível da psique para o nível do Espírito, a psique emerge daquela inconsciência; ela é desvelada diante da face da Testemunha Espiritual. E quando, por virtude daquela Testemunha, todos os eventos, incluindo eventos materiais, são conhecidos como emanando do plano psíquico – assim como o plano psíquico como um todo é conhecido como uma dramatização daquelas verdades que residem eternamente no plano Espiritual – então as projeções psíquicas sobre o plano material são retiradas. O mundo deixa de ser um objeto experimentado por um sujeito individual, e é transformado em uma aparição visionária contemplada pela Testemunha Divina – ou, em termos budistas, por ninguém.

                Enquanto a consciência continua a se mover da psique para o Espírito, os eventos começam a ser vistos não como influências boas ou ruins, mas como forças que ou fazem, ou não fazem, puxar nossa consciência para para identificá-las, fazendo com que ela abandone o nível Espiritual e retorne para o psíquico. Isto é o que os Sufis querem dizer quando eles dizem que “o pecado do crente é a concupiscência; o pecado do gnóstico é a negligência.” Eventos aparentemente bons podem tentar para a negligência, assim como eventos aparentemente maus podem apoiar a mente tranquila e vigilância espiritual.

                Em termos de guerra intelectual, da luta para superar o erro e abraçar a Verdade, a troca da psique para o Espírito faz os erros que reconhecemos em nós mesmos ou em outros, se manifestarem diretamente. Enquanto vamos começando a testemunhá-los em vez de simplesmente criticá-los ou lutar contra eles, eles aparecem diante de nós; eles são concretamente encorpados e totalmente encenados. Em outras palavas, eles se tornam lições – se, isto é, nós resistimos à tentação de nos identificarmos com eles – e um erro que é na verdade uma lição não é mais uma forma de falsidade, mas uma forma de Verdade. Quando o erro é totalmente representado como Verdade através de nossas próprias ações, o resultado é profundo e espontâneo remorso. Quando o erro é totalmente representado como Verdade através das ações de outros, o resultado é profunda e espontânea gratidão.

                O movimento da consciência da psique para o Espírito, durante o qual erros latentes surgem, totalmente formados e totalmente encenados, até que eles sejam revelados como formas de Verdade, é a significância esotérica do apocalipse, que significa “revelação”. A morte física é um símbolo da morte do ego – ou a crença que a psique humana é autônoma e auto-criada. O fim do mundo é um símbolo da “relembrança” produzida pela morte do ego – a junção dos fragmentos espalhados da psique através da retirada das projeções daquela psique na selva abstrata da matéria, energia, espaço e tempo.

                Experiência é inseparável do sentimento de que alguém existe quem é capaz de ter experiências. No fim derradeiro do ciclo de manifestação, que é o mundo – no fim derradeiro do ciclo de experiência, que é o ego – este “alguém” é confrontado por Kali, A Negra. Ela é Maya, ela é Mahashakti – ao mesmo tempo a incognoscível Divina Essência, e todo véu que simultaneamente esconde e revela esta essência, sem absolutamente nenhuma distinção entre eles. No ponto que tentamos nos segurar à nossa vida em face de Kali, ela toma essa vida. No ponto que nos desapegamos de nossa vida em face de Kali, ela é essa vida.

                Experiência é Maya, ela é Shakti. Se nos indentificarmos com ela, ela se torna parte de Avidya-maya, do fluxo da manifestação cósmica de Deus, do qual o fim último é “a morte de Deus”. Se nós quebramos a identificação com ele, ele se torna parte de Vidya-maya, do fluxo da redenção e re-integração da misericórdia de Deus, da qual o fim último é Liberação final dos vínculos da existência contingente.

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