Televisão

 A coisa mais solitária do mundo é assistir televisão: coisas acontecem na tela, e idéias mudam ou são reforçadas em nossas mentes, e somos deixados com a impressão de que algo realmente aconteceu. Não aconteceu – fora de nossas mentes. Então as televisões são mundos em uma bolha, nos fechando no castelo-prisão de nossas próprias opiniões e percepções, e como drogas um incentivador da passividade. Se os maiores eventos de nossa vida acontecem apenas dentro de nossas mentes e não envolvem necessariamente realidade externa além dos fatores sociais do que outras pessoas irão pensar, não há necessidade de agir para assegurar mudanças na realidade externa. O que acontece lá apenas acontece, e o que acontece aqui nós podemos controlar e fazer nos sentir bem, então concentre-se inteiramente no indivíduo e suas percepções.

A televisão como condicionadora psicológica é portanto destruidora. Nós treinamos enormes populações para verem a danada toda noite, e concluir a mesma coisa implícita mas não explicitamente declarada pelas notícias ou qualquer número de programas de “entretenimento” que no entanto abordam “problemas sociais” para que sejam vistos como sérios/artísticos. Dessa forma, se uma pesquisa (Qual é sua opinião? Todas as opiniões são importantes) ou votação surge, aquela grande população pode aderir à opinião que seja mais popular, que necessariamente tem pouco em comum com a realidade. Coloque uma escolha entre uma decisão fácil que nos faz sentir melhor (bolo grátis, entretenimento, ou algum sentimento emocional positivo) e uma difícil (auto-sacrifício, pensamento a longo prazo, cultura ou aprendizado, comer nosso espinafre) e a população irá inevitavelmente escolher as decisões mais fáceis que as faz sentir bem no momento, e se eles foram treinados antes pela tela azul falante, bem, então é batata.

Então eu estou dizendo que… uma conspiração do mal controla a televisão e o governo? Não — nós somos ambos indivíduos, e nossos próprios líderes, e juntos estamos iludindo uns aos outros. Assim como nos negócios vendemos produtos uns aos outros, ou contamos mentiras socialmente aceitáveis para fazer outras pessoas fazerem o que queremos, nós estamos enganando uns aos outros. Nós somos cada um produtor e parasita, e a única conspiração é nossa ignorância coletiva e disposição de manipular os outros para nossa própria conveniência. A televisão é o dêmonio? Como todas as coisas, a tecnologia aprimora forças que existiam previamente e multiplica seu efeito, então a televisão é como “pressão de grupo” aumentada 1.000% e sua efetividade é vasta. Nos transforma em sapos passivos que como rainhas dizem um “sim” ou “não” e imagina que isso significa uma diferença, e a curto prazo pode parece que sim.

Pense nisso desta forma: negócios nos vendem produtos, mas sempre há alguns mais populares que outros. Num esforço para descobrir o que será popular, eles nos pesquisam muito e conduzem enquetes de opinião dos consumidores, mas estas falham tanto quanto obtêem sucesso; quando é pedido aos consumidores que comparem dois produtos existentes, eles fazem bem. Quando são perguntados o que realmente querem, eles vêm com noções fantásticas e sugestões irrealistas. Os negócios respondem à vontade da população, mas a população deve escolher a partir do que os negócios oferecem… governos fornecem à população, mas apenas as opções oferecidas pelos governos estão disponíveis… a mídia tenta seguir a opinião pública, enquanto mostra ao público o que ela acredita ser a opinião pública, regurgitada através do filtro da “arte” (entretenimento, distração) ou lucro. Qual veio primeiro, o ovo ou a galinha? Eu não sei, mas em uma democracia uma galinha não irá votar para produzir um ovo.

Nós podemos ver os mesmos efeitos da televisão de forma dramática na internet. No início, a internet era vista como um recurso de informações (especialmente quando sua mais rentável indústria era a pornografia) mas rapidamente se tornou um recurso participativo quando chegaram os forums, chats e vídeos. Onde as pessoas primeiro buscaram recursos informativos, agora buscam entretenimento; onde eles antes poderiam, como desenvolvedores de software em uma lista de e-mails, discutir idéias e chegar a uma conclusão, agora eles re-afirmam suas próprias conclusões gritando opiniões para aqueles que possuem crenças contrárias. Ela se tornou um jogo sem futuro onde nada muda e ninguém faz nada, exceto é claro os criadores de conteúdos, que têm algo para vender. É por esta razão que muitos de nós nos afastamos progressivamente da internet, enquanto percebemos que todas as pessoas declarando firmemente suas “opiniões” não têm intenção nenhuma de agir sobre essas opiniões; eles estão vendo TV, e querem que os personagens da tela gritem e pulem em resposta, e então volta tudo ao normal. É por isto que a internet cada vez mais vem representar uma cultura separada inteiramente divorciada da realidade, com suas corujas ORLY e LOLs, onde todos possuem opiniões radicalizadas que gritam a todo vapor, afogando as conversações digitais.

Já que a televisão não é apenas uma grande indústria mas um método popular de passar o tempo, e criticá-la significa que aqueles que a assistem estão desperdiçando suas vidas em lixo sem sentido, ela é excepcionalmente difícil de criticar; diferente de uma opinião política forte, a critíca à televisão e filmes e “arte” estilo Holywood (música, pinturas, dança, teatro) não é repelida com palavras violentas por um esnobe amargurado. Ela simplesmente não é considerada. Poucos querem apontar que o que parecemos considerar como “cultura” não apenas é de baixa qualidade, mas também é popular apenas porque é enganosa e nos encoraja a considerar a passividade como equivalente a ação. É uma daquelas instalações paradoxais de nossa paisagem onde sabemos que fast food e televisão ou eleições populares são destrutivas, mas as “toleramos” porque são populares. Pelo fato de convidá-las para o meio de nós, nós assistimos a tudo ser consumido por elas; a literatura se torna parecida com a televisão, as pinturas refletem vídeos da MTV mais do que os mestres, nosso teatro é cada vez mais dramático mas sem substância, e nossa música — bem, gerações criadas com Briney Spears não irão deixar seus pais perplexos com mau comportamento (deve ser esperado). A mentalidade passiva da televisão nos encoraja em direção a uma “arte” que cada vez mais celebra o drama do indivíduo e suas preferências e prazeres, sem preocupação com a realidade passando por nós. Nós estamos nos afogando no existencial porque confinamos nosso escopo de crítica no indivíduo, como se fôssemos uma nação de pessoas em sofás apertando botões para expressar nossas opiniões.

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