A Unidade da Vida

 por Albert Einstein

               Sou por natureza inimigo das dualidades. Dois fenômenos ou dois conceitos que me parecem opostos ou diversos me ofendem. Minha mente tem um objetivo supremo: suprimir as diferenças. Assim agindo permaneço fiel ao espírito da ciência que, desde o tempo dos gregos, sempre aspirou à unidade. Na vida, como na arte, assim é também. O amor tende a fazer de duas pessoas um único ser. A poesia, com o uso perpétuo de metáfora que assimila objetos diversos, pressupõe a identidade de todas as coisas.

                Nas ciências, esse processo de unificação deu um passo gigantesco. A Astronomia, desde o tempo de Galileu e de Newton, converteu-se em uma parte da Física. Riemann, o verdadeiro criador da geometria não-euclidiana, reduziu a geometria clássica à Física, as investigações de Nernst e de Max Born transformaram a Química num capítulo de Física e, como Laeb reduziu a biologia a fatos químicos, é fácil deduzir que mesmo a Biologia não é, no fundo, senão um parágrafo da Física.

                Mas na Física existiam, até há pouco tempo, dados que pareciam irredutíveis manifestações distintas de uma entidade ou de grupos de fenômenos, como, por exemplo, o tempo e o espaço, a massa inerte e a massa pesada, isto é, sujeita à gravitação; e os fenômenos elétricos e os magnéticos, diferentes, por sua vez, dos da luz.

                Nestes últimos anos, essas manifestações se hão desvanecido e se suprimiram tais distinções. Não somente demonstrei que o espaço absoluto e o tempo universal carecem de sentido, como também deduzi que o espaço absoluto e o tempo são aspectos indissolúveis de uma única realidade. Há muito tempo Faraday havia estabelecido a identidade dos fenômenos elétricos e dos magnéticos, e mais tarde as experiências de Maxwell e dos Lorentz assimilaram a luz ao eletromagnetismo. Permaneciam, pois, opostos, na Física moderna, dois campos apenas: o campo da gravitação e o campo eletromagnético. Mas finalmente consegui demonstrar que também estes constituem dois aspectos de uma realidade única. É minha última descoberta: “a Teoria do Campo Unitário”. Agora, espaço, tempo, matéria, energia, luz, eletricidade, inércia, gravitação não são mais que nomes diversos de uma mesma e homogênea atividade. Todas as ciências se reduzem à Física: podem reduzir-se agora a uma única fórmula. Essa fórmula, traduzida para a linguagem vulgar, poderia expressar-se assim: “Alguma coisa se move”. Essas palavras são a última síntese do pensamento humano.

                Parece surpreendente a aparente singeleza desse capítulo supremo? Milhares de anos de investigações e de teorias para chegar a uma conclusão que parece um lugar comum da experiência mais vulgar?

                Reconheço que essa natureza é em parte justificável. Não obstante, o esforço de síntese de tantos gênios da ciência leva a isso e nada mais. Algo se movimenta. No começo – disse São João- era o Verbo. No começo – contesta Goethe –  era a Ação. No começo e no fim – digo eu – era o Movimento. Não podemos dizer nem saber mais. Se o fruto definitivo do saber humano parece uma vulgaríssima sorva, a culpa não é minha. À força de unificar é necessário obter algo incrivelmente simples.

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