Ambientalismo “light”

por Raphael Machado

Um breve folhear de uma revista de atualidades ou de um jornal razoavelmente decente demonstra, sem sombra de dúvidas, que o Meio Ambiente é um tema bastante em voga e que desperta o interesse de uma ampla parcela da população. Teoricamente, de todas as classes sociais.

Isso sem dúvida é positivo. Quer dizer, eu suponho, que ninguém precisa se dar ao trabalho, hoje em dia de ainda ter que demonstrar que há tal coisa como uma “Questão Ambiental” que deve ser solucionada.

O fato de que muitas pessoas, aparentemente, se interessam por esse tema deve ser considerado como pelo menos “um passo” na direção da resolução da miríade de problemas derivadas dessa “Questão”.

Porém, o próprio fato de este ser um tema que “deve estar na boca de todos”, tem sido, na verdade, a garantia de que a “Questão Ambiental” não vai ser resolvida tão cedo, o que é seriamente preocupante, dado que mesmo as previsões menos negativas das consequências da não resolução desses problemas já são bem graves.

Explico o por que de modo breve: Se o discurso ambientalista deve alcançar o maior número de pessoas possível, ele deve ser o mais simples e superficial possível, porque, do contrário, ele não terá o alcance que se quer de início.

Assim, as noções ambientais que se difundem não passam de meros “lugares-comuns”. Uma espécie de “5 maneiras de salvar o meio ambiente”. E o fato de que é isso que alcança a maior amplitude, faz com que qualquer outra forma de discurso ambiental seja “jogada para escanteio”. A popularidade do discurso ambientalista superficial garante que só essa forma de discurso continuará a ser veiculada, reforçando e solidificando a superficialidade inicial.

E eu explico também a popularidade desse tipo de discurso: O discurso ambientalista superficial e politicamente correto demanda que você faça o mínimo possível de mudanças em seu modo de vida, e no funcionamento estrutural da sociedade como um todo, e, ao mesmo tempo, permite a você se sentir bem, feliz e tranquilo por ter feito a sua parte para “salvar o mundo”. Ou seja, “5 maneiras de salvar o meio ambiente sem sair do sofá”.

Essa é uma lei do comportamento das massas. Entre uma proposta que resolve definitivamente um certo problema com 100% de eficiência, mas que demanda mudanças radicais, e uma outra proposta de caráter paliativo ou, como seus defensores chamam, “moderada”, que não resolve nada, mas que faz com que todo mundo se sinta bem por estar “fazendo alguma coisa” sem que para isso qualquer estrutura tenha que ser mudada, as massas escolherão em 100% dos casos a proposta paliativa. A não ser que a tragédia seja do tipo apocalíptico, como Godzilla atacando uma cidade ou, então, quando o problema explode e as pessoas são atingidas pela onda de choque do problema, resolvendo, aí sim, que algo de definitivo deveria ser feito.

Obviamente, vendo um campo tão aberto e repleto de possibilidades, a maioria das corporações não poderia perder a oportunidade de lucro, não? Então, contribuindo para a ilusão geral, agora você pode fazer um “consumo consciente” e “politicamente correto”, onde pelo triplo do preço, você compra um produto que polui o meio ambiente tanto quanto ou mais que o produto original, só que de maneira diferente.

Como, por exemplo, quando você troca lâmpadas comuns por lâmpadas fluorescentes. Logo estaremos vendo a “bomba atômica biodegradável” e o “napalm orgânico” com os quais você pode bombardear seus inimigos à vontade e ao mesmo tempo estar “salvando o mundo” e sendo “politicamente correto.”

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