Caim, o Imortal

do livro “La Religion Prohibida”, http://lareligionprohibida.com

Todos conhecemos o que ocorreu depois da “queda” do homem, segundo o Gênesis. Adão e Eva foram expulsos do paraíso e tiveram filhos. Primeiro Caim e logo Abel. Todos sabem que “Deus não aceitava os sacrifícios que lhe dedicava Caim e sim aceitava os de Abel”. Então Caim, cheio de ciúmes, se lançou sobre seu irmão e o matou. Todos sabemos isso, sempre pensamos “que mau foi Caim”, “matou o irmão, que horrível”. Caim era mau e Abel era bom, essa é a interpretação que nos chega pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islamismo. Inclusive Santo Agostinho, quando nos dá sua interpretação do mito de Caim e Abel, equipara Caim com os judeus e Abel com Cristo. Disse Santo Agostinho que os judeus mataram Cristo, assim como Caim matou Abel. Santo Agostinho, como a maioria, continua a tradição de que Abel era o bom e Caim era o mau.

Está muito claro na bíblia, Caim é castigado por Deus, é desterrado. Isto é visto como algo lógico e normal: Caim é mau e Abel é bom. A interpretação Gnóstica é totalmente diferente, como vamos ver agora.

Em primeiro lugar, a Gnose sustenta que Caim não foi filho de Adão, que Eva gerou seu primeiro filho, Caim, com a Serpente, com Lúcifer. A Serpente Lúcifer fecundou Eva com seu alento, sua força de vontade. Ou seja, Caim não foi um filho totalmente humano, nascido da carne. Teve algo Espiritual muito grande, porque seu pai era Lúcifer, proveniente do mundo incognoscível do Espírito.

Ao contrário, Abel foi filho de Adão e Eva, ou seja, Abel foi um filho da carne.

Temos agora uma primeira diferença entre ambos os irmãos: Caim é superior a Abel. Caim é filho do Espírito e da carne. Abel, somente da carne. Isso em primeiro lugar, agora temos que Caim não é alguém mau, é alguém superior, é alguém importante, muito mais que Abel.

Em segundo lugar, tanto Caim como Abel realizam sacrifícios ao deus criador para agradá-lo, ofertando-lhe coisas que agradam a ele. Caim sacrifica elementos vegetais e Abel, animais, como cordeiros. Segundo a bíblia, isto é o que mais agrada o criador: o sangue do animal morto e o odor de carne queimada do cadáver. O criador, diz a bíblia, gostava dos sacrifícios que lhe dedicava Abel e não os de Caim. Parecia que Caim não sentia muita vontade de agradar o criador, pois oferecia poucas sementes sem muita devoção, como se não estivesse realmente convencido da conveniência de realizar sacrifícios. Logicamente, os sacrifícios de Abel eram aceitos pelo criador e os de Caim não. Caim sentia repulsa aos sacrifícios dedicados ao criador, por sua origem, porque era filho de Lúcifer, porque possuía em seu interior a centelha divina do Anjo da Luz. Por isso não realizava bem os sacrifícios ao criador, repugnava-o fazê-lo, pois não pertencia a este mundo criado. Abel, em troca, que não era de natureza Espiritual e sim animal, realizava bem os sacrifícios, os que agradavam ao criador.

Uma antiga lenda nos relata o que Abel disse, certo momento, a seu irmão Caim: “Meu sacrifício, minha oferenda, foi aceita por Deus porque eu o amo; tua oferenda foi rejeitada porque o odeias.” Agora fica claro, como não odiar ao criador sendo um filho do Espírito, se sua natureza é Espiritual! Aqui fica bem claro. Todas estas lendas e mitos que rodeiam o gênesis nos dizem muitas coisas. Através delas, nos damos conta que muita informação nos tem sido tergiversada e ocultada. Também são muito interessantes outras palavras que Caim disse ao seu irmão. Em uma pequena frase está resumida toda a sua oposição. Estas palavras são chaves: “Não existe lei, nem juiz!” (Targumín Palestiniano, Gen., 4:8). Caim está negando a autoridade do deus criador e que deva render-lhe culto e obediência.

Posteriormente vemos que Caim assassina seu irmão Abel. Isto é algo muito profundo porque significa que o Espírito rejeita, destrói, assassina a alma. Abel, representado como puro amor e devoção na bíblia. Segundo aos Gnósticos representa a alma do homem. Caim, pelo contrário, é o representante do Espírito, por isso sua hostilidade e seu ódio. A hostilidade e o ódio próprios do Espírito, pois o Espírito realmente se irrita com este mundo impuro, contaminado de mandamentos injustos e absurdos. Por isso a resistência de Caim a realizar sacrifícios, por isso sua desobediência às ordens do criador. Caim e Abel são tão opostos e irreconhecíveis como são o Espírito e a alma.

A alma é amor puro, não Amor Verdadeiro, mas o que conhecemos como amor, o que cremos que é o amor, o que nos dizem que é o amor, na realidade é Ódio. O Espírito é o contrário, é percebido como ódio puro, hostilidade e vingança. Ao ter sido encadeado a esta criação satânica somente pode sentir hostilidade e ódio, do modo como percebem os homens ordinários. O Espírito, que é Amor Verdadeiro, somente pode sentir aversão e nojo ante esta asquerosidade. Por isso deseja destruí-la, porque para Ele a criação é uma monstruosidade deformada que não deveria ter existido nunca. Isto é o que simboliza o assassinato de Abel por seu irmão Caim.

Caim, com todos seus atos, se emancipou totalmente do criador e de seu próprio corpo e alma. Através de seus atos contra o deus criador e contra seu meio-irmão Abel, se emancipou de uma vez e para sempre do deus inferior e de sua criação impura e defeituosa. Com seus atos se transformou em um opositor, em um inimigo eterno do demiurgo e de sua obra.

Todo este episódio de Caim e Abel, tal como está no Gênesis bíblico e em lendas como as do midrash judeu, entre outras, tem sido interpretadas pelos Gnósticos de uma maneira totalmente oposta a atualmente aceita.

Depois de cometer seu Ato Supremo, diz a bíblia que Caim foi amaldiçoado por deus e expulso desse lugar. “Amaldiçoado e expulso”, o mesmo destino da Serpente do paraíso. É lógico que assim aconteceria, porque Caim havia se convertido em um opositor absoluto do deus criador, mas ocorreram outras coisas muito interessantes que vamos destacar aqui.  

  Em primeiro lugar, vemos que Caim foi amaldiçoado e exilado pelo deus criador. Isso, que pudera parecer castigo, para um Gnóstico é o contrário. Ser amaldiçoado e exilado pelo criador é uma honra para um Gnóstico. É a reação lógica do demiurgo frente a quem o tem desafiado e esbofeteado, frente a quem se fez igual ou superior a ele. Caim foi exilado porque se transformou totalmente, se exilou com êxito por si mesmo e já não pertence a este mundo, ainda que continue habitando-o. A bíblia diz que o criador o exilou, porém Caim é um emancipado, um libertado em vida, que com seus atos maldisse o criador e se auto-exilou desta criação abominável.

Em segundo lugar, contam algumas lendas judias que o criador castigou para sempre Caim com a falta do sono, condenando-o a não poder dormir, à vigília permanente. Para um Gnóstico isso não é um castigo, mas sim um triunfo. Estar sempre desperto é uma vantagem, uma virtude, um ganho importante. Caim se auto-despertou, desobedecendo aos preceitos do criador e “assassinando” sua alma.

Em terceiro lugar, a bíblia diz que o criador protegeu Caim, não permitindo que nada lhe fizesse dano ou o matasse. Este é outro ponto muito interessante. Dizem os Gnósticos que o homem que se tem transformado em puro Espírito, ainda que siga habitando o corpo físico, é um imortal, um intocável. Nada nem ninguém podem causar-lhe dano, nada pode atacá-lo, já não tem medo, pois está acima de tudo e já não morre mais, ainda que não seja mais um ser vivente como os outros. Está neste mundo porém fora dele. Está fora da matéria e fora do tempo, já não faz parte da criação. É um exilado deste mundo por vontade própria. O deus criador não pode causar-lhe dano, porque Caim se tornou superior a ele.

Em quarto lugar, a bíblia diz que o criador pôs uma marca em Caim, um signo para que todos o reconhecessem e não lhe fizessem dano. Antigas lendas judias dizem que esse signo era um chifre na testa. Um chifre na testa significa poder, o poder proveniente do Espírito, o poder que o distingue dos demais homens. Essa “dureza” na testa significa que o Espírito foi liberado e tomou posse do corpo, solidificando-o, Espiritualizando-o. Ninguém pôs uma marca em Caim. Caim conseguiu por si mesmo. Quando isto ocorre, a humanidade e toda a criação sentem. Todo Espírito liberto de sua prisão da matéria terá essa marca por toda a eternidade. Nunca será o Espírito que era antes do encadeamento da matéria. Essa marca é o corpo transformado, duro como diamante, a quem o Espírito transformou em imortal e eterno. Este será sua eterna lembrança, a prova de seu passo pelo inferno e seu triunfo sobre ele.

Podemos encontrar distintas sínteses sobre a explicação Gnóstica do mito de Caim, no livro que temos citado do Monsenhor Meurin sobre a maçonaria. Também em Le Dieu Rouge, de Robert Ambelain e em Atheism in Christianity, de Ernst Bloch. Assim mesmo, no livro Los Mitos Hebreos, de Graves e Patai, existem dados interessantes. Também existe uma interpretação Gnóstica muito profunda sobre esse mito, em uma estranha novela que se tem divulgado na internet, intitulado “O Mistério de Belicena Villca”. 

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