2Cosmologia

Cosmologia é a primeira ciência que é usualmente distinguida da metafísica. Dado que a metafísica é a ciência da própria Realidade, não pode haver questão de qualquer ciência sendo realmente separada dela. No entanto, dada a posição do homem na hierarquia da existência, é frequentemente benéfico para ele estudar um aspecto particular da Realidade mais de perto, através da aplicação de princípios metafísicos. Neste caso ciências podem surgir as quais parecem externamente terem uma existência própria, mas são na realidade um ramo mais ou menos especializado de metafísica. Isto é certamente, a mesma exata relação como entre o Absoluto, e qualquer possibilidade contida nele a qual pode ser deixada de fora por virtude da relatividade da consciência individual. A razão apropriada para estudar um aspecto em particular da realidade mais de perto é que ele aparece diretamente ao homem, e portanto age para ele como um símbolo e um suporte para realização do próprio Absoluto. Disto pode ser entendido por que a cosmologia é útil.

Pode ser notado que esta concepção de ciência, que é a tradicional, está em direta oposição à ciência das pessoas modernas, que sempre pega fatos empíricos como seu ponto de partida e tenta erguer estes numa teoria completa. Tal ciência nunca pode ser estritamente precisa ou até mesmo particularmente útil a não ser em uma forma puramente prática, porque se ocupa apenas das informações mais relativas sem nenhum princípio de suporte que as permitiria serem integradas numa visão de mundo holística. Para o homem tradicional um entendimento do mundo como um todo de acordo com seus princípios fundamentais é sempre mais importante que um entendimento preciso de fatos físicos, mas no mundo moderno esta hierarquia natural é invertida, devido à inaptidão do homem moderno de conceber domínios mais elevados do que aquele no qual ele se confinou.

Quando falamos do Ser mencionamos a dualidade de Ser e Consciência que existe em toda manifestação. Neste contexto uma representação mais precisa das palavras é Substância e Essência, apesar de que em relação à manifestação estes princípios são invertidos. Na metafísica o princípio masculino é o impassível e imutável vazio, enquanto o princípio feminino é a Infinitude externamente radiante e amável do princípio. Em manifestação estes papéis são invertidos e o princípio masculino se torna a Essência doadora que dá forma sobre o princípio feminino puramente receptivo. Isto é devido a uma lei conhecida como inversão metafísica, na qual verdades que passam do metafísico para o reino manifesto frequentemente assumem relações inversas no mesmo. A natureza desta inversão pode ser ligada àquela da reflexão em um espelho, a qual oferece uma interpretação relativamente precisa desta lei metafísica devido a correspondência natural de realidades menores com realidades grandes. O princípio Essencial era chamado de forma pelos Gregos e Escolásticos, enquanto o princípio Substancial é a “materia prima” dos escolásticos, eles poderiam ser ligados à pura qualidade e quantidade, a inteligência da Essência fornece a Substância dentro de uma realidade temporariamente inteligível por virtude da forma. Por esta razão todas as formas estão contidas como arquétipos dentro de suas Essências, e é apenas através de suas existência ilusórias como manifestações que elas podem tornar-se corrompidas; esta é a natureza da feiúra, da qual vamos falar novamente mais tarde. Esta visão é geralmente conhecida como Platônica, e de fato, não poderia haver ponto melhor de origem para o ocidental querendo estudar este aspecto da metafísica. Desnecessário dizer, Platão sempre considerou os princípios mais elevados da metafísica como sendo auto-evidentes, e é por isso que para o leitor moderno que não está a par disto, muitas de suas afirmações podem parecer presunçosas, quando na realidade, é apenas ignorância da parte do leitor que poderia levar à esta suposição.

A analogia entre macrocosmo e microcosmo é, como explicamos, fundamental na metafísica e especialmente na cosmologia. Todas as formas diversas são manifestadas dos mesmos princípios, e portanto todas elas formam uma rede de inter-relações que a ciência tradicional tenta estudar. Nada pode existir a não ser que participe, em uma extensão maior ou menor, da própria realidade, e todas as formas manifestadas devem participar em qualidades que pertencem à Essência universal, representando-as inteligivelmente. Uma ciência que ilustra o estudo das correspondências metafísicas é a ciência do simbolismo numérico, que está necessariamente escondida dos cientistas modernos, como estão todas as ciências tradicionais. Para estudar esta ciência deve ser entendido que nada pode existir a não ser que tenha um grau de objetividade, isto é um grau de participação na pura Essência; portanto os números, apesar de serem usados para expressar quantidade pura, devem também possuir qualidades para que sejam compreensíveis, pois não há nada em pura quantidade que nossa inteligência possa assimilar a menos que esteja sujeita a uma forma conferida pelo pólo Essencial de manifestação. Um é a reflexão da unidade metafísica, que é o Ser Universal, e sendo o princípio imediato de manifestação ele engendra todos os outros números por indefinida repetição de si mesmo. Dois reflete o princípio da dualidade que é Essência e Substância, ou a divisão ilusória entre Origem e a manifestação como tal. Também pode ser visto que todas as dualidades cósmicas correspondem em algum grau à dualidade primordial de Essência e Substância, ativo e passivo, macho e fêmea, solar e lunar, todos possuem as mesmas qualidades essenciais. O mesmo pode ser dito dos ternários discutidos em relação ao número três. Outro reino em qual a lei de correspondência é aplicada é o dos ciclos cósmicos, o qual iremos agora discutir em mais detalhes já que nos dizem respeito diretamente.

O ciclo mais geral é o da manifestação e dissolução do cosmos, que aparece por um instante (que é puro nada em face da eternidade ou atemporalidade do Absoluto) e então é reabsorvido. Nós lembramos o leitor novamente que a idéia de sucessão não se aplica realmente aqui, já que é simplesmente uma possibilidade contida dentro da eternidade do próprio Absoluto, mas de qualquer maneira, é desta aparência que o tempo e todos os seus ciclos são gerados. Nascimento e morte, criação e destruição, ascensão e queda, nascer e pôr do sol, inalação e exalação, todos estes são simplesmente distantes reflexões do “sopro do Absoluto”. A ciência dos ciclos era conhecida por todas as civilizações antigas, e era associada como similar ao número quatro. O tempo de vida humano contém quatro fases, e estas são infância, juventude, maturidade e velhice. Transportadas para o reino do coletivo humano se tornam Satya Yuga, Treta Yuga, Dvapara Yuga e o Kali Yuga da cosmologia Hindu. Na antiguidade clássica estas eras foram ligadas aos metais, Ouro, Prata, Bronze e Ferro. Pode ser visto que estes metais correspondem com uma queda gradual da nobreza, a explicação é que no começo de qualquer ciclo a manifestação está mais perto de seu princípio e depois gradualmente cai de sua ordem para exaurir todas as suas possibilidades. Então as possibilidades expressas no final do ciclo naturalmente serão as mais baixas e mais distantes do princípio. Isto é de particular importância porque a era em qual nos encontramos é nada menos do que o final momento do Kali Yuga, ou Era Escura.

Devia ser evidente do que foi discutido até aqui que nós não temos uma estima muito elevada pelo mundo moderno. O apego do homem pelo mundo material, seu escape de Deus e até da beleza num sentido puramente emocional, sua gradual escravização por suas próprias criações, e sua total impotência em face da ignorância sem dúvida são todos sinais de que esta é a era final deste coletivo humano em particular. O fim de todo ciclo no entanto, é também o nascimento de um novo de um outro ponto de vista, então deve ser notado que apesar de que o mundo tenha se tornado endurecido para uma influência espiritual, ele também começou a transparecer para aqueles que estão cientes da natureza do mundo moderno, devido a sua proximidade de morte e portanto re-nascimento. Naturalmente todo ciclo é conectado por analogia com todo outro ciclo, então o atual estado da humanidade não fica sem conexão ao atual estado de seu setor cósmico particular, o qual se tornou espiritualmente endurecido durante este período cíclico. Deve ser notado também que o tempo de vida humano não corresponde em todas as maneiras a uma decadência gradual. Na verdade este é apenas o caso do corpo, que se move para mais perto da morte com cada dia, já para o ser individual, do qual o corpo é apenas uma mera “roupa”, o tempo de vida humano pode em alguns casos ser uma ascensão espiritual, na qual o ser retorna ao Absoluto. Esta jornada pode ser completada em vida ou no momento da morte, mas é para a maioria dos seres humanos vivendo em Kali Yuga, uma que deve continuar após a morte, não sendo possível a liberação do estado individual sem algum grau de conhecimento puro durante a vida.

Devemos agora trazer nossa atenção para um domínio da existência que é muito próximo do físico, tão próximo na verdade, que até as pessoas modernas não são capazes de se fecharem para ele, apesar de muitos ainda reservam dúvidas sobre sua realidade. Este é o domínio súbito, no qual as formas são diferenciadas, mas não realizadas em matéria. Este é propriamente o reino da consciência individual, e também as pré-figurações de todos os elementos da manifestação física. Por esta razão o reino súbito é também conhecido como estado anímico, porque é o princípio imediato, animador do físico. A consciência individual é inegavelmente uma forma limitadora, mas não está confinada à matéria; portanto ela pertence propriamente ao estado súbito, assim como os princípios animadores imediatos dos elementos físicos. O estado súbito é de uma forma uma dimensão de profundidade em relação com a física, de maneira que ela vai além do físico mas não é por esta razão necessariamente superior a ele. Por esta razão uma ciência como a magia, que tem por meta a extração de efeitos físicos a partir de causas súbitas não era exaltado em civilizações tradicionais, mas é a causa de muita curiosidade entre pessoas modernas, simplesmente porque elas ficam perplexas que qualquer coisa possa cair fora de suas visões estreitas do mundo. Desnecessário dizer que esta curiosidade das pessoas modernas sobre algo não-físico não ocorreria a não ser que os resultados fossem imediatamente visíveis no reino físico. É no estado súbito que o indivíduo é perpetuamente prolongado se não alcançou nenhum grau de percepção no momento da morte.

A questão sempre foi perguntada, “Se Deus é o bem soberano, como é possível que o mal exista?” A resposta está no fato de que toda forma existe apenas refletindo o Absoluto dentro de limites particulares que a definem. Uma forma, mesmo que uma física, irá parecer bela se seus limites a permitam representar o Absoluto relativo ao observador, isto quer dizer se corresponder ao seu arquétipo essencial em seu nível particular de existência. Portanto o sol, possuindo as qualidades definidoras da luz e calor, que refletem conhecimento e amor no domínio corpóreo, parece belo para o homem porque ele parece ser uma benção do alto, que o fornece com coisas que ele precisa para a própria existência. Admirando a beleza desta forma nós estamos admirando a beleza do Divino, pelo menos enquanto não formos tentados a fechá-la dentro dos limites que uma forma física implica; portanto é perfeitamente natural dizer que Deus é o sol, mas não que o sol é Deus. Uma forma feia, por outro lado, só é assim pelo fato de que é uma erosão de certas qualidades que fazem seu arquétipo belo, porque nada feio pode existir em princípio, isto é, é apenas feio através de uma falta, e portanto na análise final a feiúra, ou mal, se revela como puro nada. Não há portanto nada subjetivo sobre a noção da beleza, então num ponto de vista tradicional é deveras natural falar de um erro estético sem reservas. Nós falaremos mais disso em breve.