3Religião e Arte

Para que toda possibilidade seja realizada, é necessário que o Infinito se manifeste dentro de estruturas limitadas; está é a explicação para a existência da criação, e também do mal como demonstramos. Também ocorre que em tempos particulares, o Absoluto se revela diretamente ao homem dentro de uma estrutura formal, e isto é o que é comumente conhecido como revelação. Cada revelação é essencialmente a expressão do Absoluto em seu próprio nível de realidade, e portanto, para aqueles que são capazes de perceber sua essência, formas religiosas são um portal para o Conhecimento Divino. Por outro lado há aqueles que não possuem a capacidade intelectual, pelo menos em seus estados atuais de ser, para acessar este conhecimento. O primeiro reconhece que não há divisão entre as diferentes formas religiosas, porque uma forma, devido às suas limitações, nunca pode ser absolutamente única, o segundo por outro lado, precisa necessariamente levar o caráter dogmático de escrituras literalmente, e este caráter dogmático é na verdade uma marca da essência das religiões pois o Absoluto precisa sempre se expressar em termos Absolutos apesar das limitações que a forma implica. Está na marca de uma verdadeira religião que ela sempre irá dar para um homem tudo que ele precisa para realizar seu potencial completo em seu estado de ser, e é por isto que numa civilização em que a revelação é o sangue-vital, homens comuns não sentem ressentimento pelos seus melhores, pois eles estão satisfeitos pelos seus lugares na hierarquia natural da existência humana. É apenas quando o conhecimento puro se retira do coração de uma civilização, que as rupturas sociais podem começar a ocorrer, e nós não precisamos entrar em detalhes aqui sobre as consequências deste fenômeno já que ele afeta o mundo moderno.

Uma religião que pode ser colocada em questão aqui é o Hinduísmo, que não parece se conformar às declarações que nós acabamos de fazer. Nós podemos apenas dizer aqui que isso é devido a ele ser a mais antiga religião que ainda vive no tempo moderno, e como tal foi destinada para um povo cujas condições mentais eram tais que não era necessário para o Absoluto se “vestir” em envelopes que são impenetráveis exceto para aqueles os quais são destinados ao conhecimento metafísico. As condições mentais dos povos que foram os receptores de revelações mais recentes eram tais que uma formulação direta do conhecimento metafísico teria sido confusa e distrairia, estes povos mais passionais e menos contemplativos requeriam uma espiritualidade que apelasse às paixões, mas ainda possuindo o conteúdo essencial que amarra todas as religiões juntas como uma unidade. Isto leva a uma distinção entre o esotérico e o exotérico, o primeiro é o conteúdo essencial das escrituras, e o segundo é sua forma externa a qual é compreensível a todos. Na Civilização Islâmica o esoterismo sempre foi guardado pelos Sufis, que desta forma correspondem aos Brahmins do Hinduísmo, infelizmente ele nunca foi protegido desta forma na religião Cristã, e por isso o gradual desaparecimento do conhecimento intelectual na religião Cristã ao longo do último milênio a deixou sucumbir à decadência da idade moderna. Isto não quer dizer que pura inteligência parou de existir na linguagem formal da Igreja e nas escrituras, estes ainda podem servir como suportes espirituais para qualquer um qualificado para o conhecimento metafísico, apesar de que faríamos uma reserva aqui para as denominações Protestantes muitas das quais acham cabível destruir as exaltadas tradições do Cristianismo por puras razões humanas, desnecessário dizer isto não é justificável de um ponto de vista tradicional, o qual sempre possui sabedoria supra-humana em sua base.

Cada mundo religioso é a perfeição da manifestação formulada de acordo com as condições mentais de um povo em particular. Assim a linguagem formal cria uma ambiência na qual o Espírito Divino está constantemente presente. A origem essencialmente supra-individual desta linguagem formal significa que ela pode ser mantida ser nenhum esforço. Sua beleza é auto-evidente para todos aqueles que vivem dentro daquela civilização porque é formulada de acordo com suas necessidades e portanto revela a eles a natureza da realidade até a extensão que eles são capazes de entender. Por isto na criação de um trabalho de arte tradicional, o criador deve tentar limpar-se de seu ego completamente,  para que o Espírito possa se manifestar no símbolo que ele cria. Isto está em grande contraste com a visão moderna de arte, na qual a originalidade do indivíduo é sempre colocada antes da qualidade objetiva de seu trabalho. Incapaz de reproduzir a perfeição simbólica de trabalhos de arte tradicionais, artistas foram levados primeiro ao reino de arte humanista e grotescamente passional, e desceram espiralmente à pura feiúra e caos nos quais apenas a mais corrupta alma poderia ter prazer. Como já mostramos, não há nada arbitrário na ciência de formas e estética, mas este aspecto científico da arte desapareceu em tempos modernos, junto com sua beleza. É também significativo que em tempos modernos arte, como também religião, é rigidamente separada do resto da vida de uma pessoa, desfrutada como um mero luxo. Na civilização tradicional qualquer ato de criação que não fosse conduzido como arte seria condenado, porque espiritualidade é sempre mais importante que praticidade num nível físico. É devido a inaptidão do homem moderno de perceber a significância das formas e suas influências em sua consciência que ele falha em perceber como pode ser danoso viver num mundo de feiúra como todos que habitam na paisagem urbana fazem. Quem possivelmente poderia ser cercado pelo mal, pois isto é essencialmente sinônimo com feiúra, e possuir qualquer grau de felicidade duradoura? O homem moderno de fato construiu uma paisagem infernal a qual suporta sem entender a taxa que suas próprias ações pegam de sua alma.

À parte da linguagem formal que a religião produz e mantém, ela também possui o aspecto de um caminho pelo qual o homem pode ser levado de volta, ou para dentro, à Deus. Este caminho é, como estrutura formal, formulado de acordo com as necessidades do povo para o qual é destinado. Portanto uma religião destinada para os povos volitivos do mundo Ocidental colocaria maior ênfase em ação do que contemplação, mas nunca poderia descartar esta, sendo o conhecimento puro a essência de toda religião. Os caminhos diferentes são mais precisamente representados no mundo Hindu como as quatro castas; elas são Brahmins (correspondendo de certa forma a função do sacerdote), Kshatriyas (Nobreza), Vaishya (mercadores), Shudra (Trabalho). Há também dois tipos que são excluídos da sociedade, primeiro os monges, que estão “acima” do sistema de castas, segundo são os “intocáveis” na civilização Hindu, que por uma razão ou outra estão “abaixo” do sistema de castas. As quatro funções sociais estiveram presentes de forma mais ou menos rígida em todas as civilizações tradicionais, porque elas correspondem à natureza real de um povo; cada uma das religiões fornece as pessoas com um meio de santificar seus deveres. Para o Brahmin a verdade espiritual está sempre presente, para o Kshatriya toda ação reflete a ordem Divina, para o Vaishya seu artesanato é a reflexão do ato criativo, para o Shudra seu trabalho é o sustento da civilização. Dentro de cada estrutura religiosa estes deveres podem ser realizados dentro da presença de Deus, eles aperfeiçoam e entregam o homem.